O PROFETA DO ACONTECIDO

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Terça-feira, Dezembro 09, 2008

 
Em breve em



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posted by Marcelo Xavier 7:12 PM


Sábado, Outubro 06, 2007

 
Memória
SALVE BODINHO!
Magro, baixo, o atacante Nílton Coelho da Costa foi um
dos maiores artilheiros do Internacional de todos os tempos




Pernambucano, vindo de uma família humilde, criado com muita dificuldade pelos pais ao lado de vinte e dois irmãos. Uim homem que, em 1950, aos 22 anos, quando chegou ao Rio Grande do Sul, aprendeu a amar essa terra e a venerar um clube de futebol.

Foi em Porto Alegre que Nílton Coelho da Costa conquistou as maiores conquistas de sua vida: o nascimento de sua filha e de suas duas netas, e a consagração por ser idolatrado pr uma multidão. Tímido, trabalhador, humilde, não admitia perder: tinha dificuldade em assimilar derrotas. Desde a infância dificil no Nordeste até a velhice no Sul, quando sofreu com cancer de próstata por dez anos e com o Mal de Alzheimer durante dois, ele conquistou uma verdadeira legião de fãs que sempre terá namemória um homem que era capaz de realizar façanhas em um campo de futebol. Bodinho chegou no Internacional em 1951. Permaneceu por oito anos. Conquistou três campeonatos gaúchos, participou da conquista do Pan de 1956 e fez parte de um dos maiores times da história do clube.

Eliane Alves da Costa é a sua única filha. Ainda tentando se recuperar da morte do pai e tem em sua volta todo o acervo da carreira do jogador. São fotos, revistas, camisetas e a chguteira usada por ele no México.

- Meu pai não foi só um jogador - relembra Elaine - Foi um filho maravilhoso, que ajudou a família, nunca esqueceu suas raízes, foi um excepcional marido e pai.

Falar em Bodinho é falar em Larri. Amigos, parceiros, irmãos. Os dois jogaram juntos por seis anos e formaram uma dupla de ataque que consagrou a tabelinha. Ambos levaram a Seleção ao inédito título do Pan.

Eu o conheci ainda jogador do Flamengo – relembra Larri. - Eu ver um jogo com o meu irmão no campo do Vasco em 49, foi o Flamengo contra o Arsenal, da Inglaterra, e o Flamengo venceu por três a um. E a ala direita era Luizinho e Bodinho. Eu fiquei encantado com o jogo. Mal sabia eu que, anos fepois, eu estaria jogando com ele. Quando eu cheguei no Inter, ele morava na concentração dos Eucaliptos e eu também, se é que a gente podia chamar de concentração. O estádio não apresentava concentrações. E morávamos no mesmo quarto, e o Bodinho era um sujeito que tudo tinha que ser limpinho. Ele às vezes bonqueava comigo. Ele tinha uam coisa interessante: quem não o conhecesse imaginava que ele estava brabo, na verdade ele não estava brabo, era a maneira de ser. Era uma característica dlee muito interessante é que, quando ele começava a ficar irritado com alguma coisa, tinha uma veia do pescoço dele que saltava, que nos colocamos o aleido de “ dona Leonor”. E nós ríamos, e ele se acalmava um pouco.

O seu começo de carreira foi com muita dificuldade. A família não permitia que ele jogasse futebol. Por isso, a solução foi fugir de casa, como revela Elaine:

- Meu vô era uma pessoa muito rica, e ele trabalhava numa fábrica. O meu avô acabou perdendo, e minha vá, como teve vinte e três filhos, encasquetou que queria botar o nome de Wilson e alguém. Desses vinte e três, dez se criaram, e com muita dificuldade, de passar fome. E ele fugiu lá de São Luís. Os pais dele não queriame ele era menor de idade.

A sua carreira no futebol foi em meados dos anos40, jogando pelo Íbis. Larri confidencia que essa passagem no agradava a ele:

- Ele começou lá e não gostava que soubessem. Depois ele foi para o Flamengo. Ele foi um jogador que, comigo, foi quando ele mais se adptava.

Do Íbis, ele foi para o Sampaio Corrêa, e atuou lá por um ano, até chegar no Rio. Na Capital, ele conheceu Luizinho, que mais tarde seria o seu companheiro no Internacional e na Seleção Brasileira. Foi Luizinho quem trouxe Bodinho para Porto Alegre.

Eu o conheci no Flamengo – relembra Larri. - Eu ver um jogo com o meu irmão no campo do Vasco em 49, foi o Flamengo contra o Arsenal, da Inglaterra, e o Flamengo venceu por três a um. E a ala direita era Luizinho e Bodinho. Eu fiquei encantado com o jogo. Mal sabia eu que, anos fepois, eu estaria jogando com ele. Quando eu cheguei no Inter, ele morava na concentração dos Eucaliptos e eu também, se é que a gente podia chamar de concentração. O estádio não apresentava concentrações. E morávamos no mesmo quarto, e o Bodinho era um sujeito que tudo tinha que ser limpinho. Ele às vezes bonqueava comigo. Ele tinha uam coisa interessante: quem não o conhecesse imaginava que ele estava brabo, na verdade ele não estava brabo, era a maneira de ser. Era uma característica dele muito interessante é que, quando ele começava a ficar irritado com alguma coisa, tinha uma veia do pescoço dele que saltava, que nos colocamos o aleido de “ dona Leonor”. E nós ríamos, e ele se acalmava um pouco.

A sua carreira no futebol foi em meados dos anos 40, jogando pelo Íbis. Larri confidencia que essa passagem no agradava a ele:

- Ele começou lá e não gostava que soubessem. Depois ele foi para o Flamengo. Ele foi um jogador que, comigo, foi quando ele mais se adptava.

Do Íbis, ele foi para o Sampaio Corrêa, e atuou lá por um ano, até chegar no Rio. Na Capital, ele conheceu Luizinho, que mais tarde seria o seu companheiro no Internacional e na Seleção Brasileira. Foi Luizinho quem trouxe Bodinho para Porto Alegre.

Em 1951, Bodinho chega ao Internacional, onde se torna um dos principais jogadores de um time considerado fora de série – o Rolinho. Quem atuou nessa equipe, lembra até hoje daquela escalação. E Milton Vergara é quem lembra daqueles onze amigos:

- Era Mílton, Florindo e Oreco; Paulinho, Salvador e Odorico, Luizinho, Bodinho, Larri, Jerônimo e Chinesinho. O Paulinho foi para o Vasco e o Salvador para o Peñarol, e o time se desmanchou um pouco.

Jogadores como Mílton e Larri lamentam que não existia tevê naquele tempo. No entanto, para quem não o viu jogar, os companheiros relembram quem foi o artilheiro colorado.

- Naquela época, a gente tinha dificuldade de ser reconhecido nos grandes centros- diz Mílton. 'Não tínhamos tevê nem jogos contra times de Rio e São Paulo, a não ser amistosos. Jogávamos mais de quarenta partidas por ano, e de vez em quando o Flamengo tinha aqui, o Botafogo, o Vasco, eles vinham, mas não tinhamos aquele reconhecimento.

Larri conta que ele tinha uma obssessão: o gol. Obsessão que gerou muitas histórias.

- Uma passagem dele que eu considero fantástica foi a campanha do Pan, no Mexico. Nós estávamos na penúltima partida, jogando contra a Costa Rica. Até então, ela era a grande sensação do campeonato, junto com o Brasil. Mas, naquele dia, nós estávamos com o espírito dos grndes jogadores, e começamos a fazer gol na Costa Rica. De cara um fiz dois, daqui a pouco o Chinesinho fez um, aquela coisa. No segundo tempo já estava cinco a um para nós nos vinte do segundo, até que o Luizinho entrou pela ponta e deu coma bola prá trás, e houve um choque do Bodinho com o goleiro. Ea bola ficou parada na risca da prquena área. E o goleito e o Bodinho no chão, eu vim para fazer o gol. Quando ele me viu, ele puxou a bola deitado com o pé, e ainda me xingou: “você já fez três, deixa eu fazer o meu!”. E eu nunca vi alguém reclamar fazendo gol e reclamando com o companheiro.

Talvez por isso, hoje Bodinho seja considerado um dos maiores goleadores da história do futebol gaúcho. Nos arquivos, são registrados 193 gols em oito anos. “Ele foi, no meu entendimejto o maior artilheiro da história do Inter”, diz Larri. “ele tem uma média de quase 90% de gols, em quase cem jogos ele fez noventa. No Gauchão, se fala que o Baltazar é o mahor,mas não é. O Baltazar fez 28 gols mas em quarenta e cinco jogos (na verdade, ele fez os gols prelo Citadino, e não pelo Gauchão, que foi apenas um, de acordo com a fórmula do Campeonato até 1959, quando o título era disputado pelos campeões por região). O Bodinho fez vinte e cinco em dezoito jogos.

Mílton Vergara explica que o excesso de gols vinha do fato que ele não admitia perder.

- Só queria ganhar, ele ficava enjoado, ele nos desnorteado, porque ele não admitia perder. Deus me livre se a gente tomasse gol, ele vinha brigar com todo mundo. Qualquer coisa ele se irritava, porque domingo a gente em campo, e empate era derrota. Nem no departamento de ex-atletas ele queria perder, ele queria ganhar sempre. Aconteceu quando a gente foi jogar com os veteranos do Taquarense. Ele driblou o goleiro e chutou para o gol, mas aí tinha um garoto enconstado na trave que tirou a bola com a mão, e ele foi brigar com o garoto, porque o juiz não validou. A gente foi apartar: prá que brigar com o garoto. O Bodinho disse: “ nas ele não me deixou fazer o gol!”. Ele era sssim.

Larri reafirma a dificuldade de Bodinho em não aceitar a derrota:

- Ele era o tipo de jogador que o gol era tudo, o resto ele deixava de lado.

Míltion e Luizinho contam que Bodinho aprendeu a viver como gaúcho em Porto Alegre, e o chimarrão se tornou o companheiro inseparável

- Ele era metade pernambucano e metade gaúcho. Tanto que ele conseguiu o título de campeão no Brasil pela seleção Gaúcha. Ele era chegado num chimarrão. No começo ele diz que era só água quente, e depois ele se afeiçoou que não largava. E a gente mexia com ele: “como é, pernambucano, tu não dizia que era água quente?”. Ele dizia que era gostoso, e botava uma ervinha - diz Luizinho.

A gente estava sempre conversando, porque ele falava que tomava chimarrão, e todo dia eu me escorava nele porque ele tava sempre tomando chimarrão - diz Mílton.

Bodinho não escondia de ninguém que, além de amar a família, ele amava o Internacional.

Um dos momentod altos de Bodinho no Inter foi no Festival de Inauguração do Olímpico, em setembro de 1954:

- No Grenal, o Grêmio organizou um triangular com o Liverpool, do Uruguai, e Inter. No primeiro jogo entre Liverpool e Inter, o destaque foi ele, Bodinho. Ele fez três gols, e o Larri um, ganhamos de quatro a zero.

Larri foi o destaque da partida, marcando quatro dos seis a dois impostos pelo “visitante”. Segundo Larri, Bodinho tinha certeza absoluta que o colorado iria ganhar. “havia uma diferença entre os dois estádios, o Olímpico era mais bonito. Mas o interessante foi que o Grêmio fez o primeiro gol e fez o último. Eles fizeram o primeiro logo com quatro, cinco minutos. De repente, nós viramos. O Jerônimo empatou com um chute be belíssimo de fora da área. Depois, eu tive uma seqüência de três gols.

No segundo tempo, houve o lance polmico, do Sérgio Moacir, em que o Luiizinho atravessou a área do lado esquerdo, do lado da social, ele atravessou em diagonal para a direita, e atrás dele veio o Ênio Rodrigues, ele parou a bola na altura do pênalti. O Ênio estava tão tonto com a partida que ele estava atrás do Luizinho, e a bola ficou parada. E o Canhotinho veio e deu um bico que fez a bola voar por cima do Sérgio. Ele se irritou e saiu da goleira. E nós, eu não estava entre eles, começaram a chamar ele de volta.

Um momento histórico: a origem da tabelinha Bodinho e Larri. Este lembra que o toque de bola rápido, característica do Inter daquela época, colaborou muito para que eles consagrassem a jogada.

- A tabela surgiu em ciscunstância do próprio futebol da época. Aquele futebol permitia que o jogador inteligente pudesse fazer jogadas de toque”, diz Larri. “Nós fizemos um jogo amistoso contra o Esportivo de Bento, que tinha um bom time. O Grêmio e o Renner foram jogar lá, e perderam. É que se jogava naquele tempo com o famoso “ beque de espera”. E o Esportivo jogava com um atleta parado. Fomos lá, e o nosso time era de toque de bola: eu, Jerônimo, Chinesinho, Bodinho. Todos tabelavam e tocavam. Quando a gente triangulava em direção à meta,a gente passava por um, por outro, e de repente o zagiueiro ficava entreos dois. Posi bem, em vinte minutos de jogo, a gente estava vencendo de cinco a zero! O treinador, que era argentino, foi até o banco do Inter e pediu ao teté para que o time parasse de fazer gols no esportivo, senão ele corria o risco de ser demitido. A tabela decorria de uma coisa, precisava de alguém inteligente. Aí, sem falsa modéstia, eru tinha essa capacidade de saber triangular. Eu tocava e saía para receber, e devolvia para o Bodinho, eu o servia em muitas jogadas, porque eleera inteligente, ele sabia procurar os espaços.

Mas a maior conquista de Bodinho no futebol foi o título do Pan de 1956, no México. A Seleção Gaúcha representou o Brasil,e em cinco partidas, Bodinho fez trs gols. “Me lembro que o Bodinho foi uma grande figura naquela campanha”, lembra Fernando Veronezi, radialista. “ Outra figura muito importante foi o Ênio Andrade, era o meia-esquerda. O ponta era do Floriano (Raul Klein). O time eraSérgio, Florindo e o Duarte, do Pelotas. Depois Oreco, Odorico e ênio, Luizinho, Bosinho, Larri e o Raul”.

Bodinho era unanimidade até no arquirival. Quem viveu esse período foi o torcedor gremista Salim Nigri:

- Eu admiro o outro lado. Se o cara é bom, é bom, não adianta. E a gen te acabava adimirando. O jogador que eu mais gostava no Internacional na década de 70 era o Valdomiro. E o Bodinho era o atacante, ele tava sempre dentro da área, era um grande jogador.

Por que Nílton era chamado de Bodinho? Existem três versões. Segundo Eliane, diz-se que a origem vem de sua capacidade de cabecear a bola. Mas ela tem outra versão: “desde pequena eu ouvia a históiria que o apelido veio do fato que ele era muito chorão, ele chorava feito um bode, tanto é que eu tenho uma foto dele rindo agarrando um bode”. Mílton, porém, tem outra: “ na concentração, o Bodinho disse que era chgamado de Bodinho porque, quando ele era criança, ele gostava de mamar nas tetas das cabritas, então veio o apelido”.


Fonte: programa Bodinho, Uma Estrela, Um Ídolo, produzido pela equipe de esportes da rádio Guaíba (www.guaiba.com.br)

posted by Marcelo Xavier 7:34 PM


Terça-feira, Setembro 25, 2007

 
Gauchão
TRINTA ANOS DA RECONQUISTA
Gol de André Catimba determinou o fim da série de oito títulos
gaúchos consecutivos conquistados pelo Inter


Grêmio campeão com o gol de André

O apito do árbitro mal havia terminado de trilar e Tarciso chorava, as mãos para o céu em um misto de protesto e raiva. O Inter ganhara por 2 a 0 mais um Gre-Nal, o da decisão de 1976. Era campeão gaúcho pela oitava vez seguida. Situação insustentável, imaginou o flecha negra, o que justificava plenamente a heresia a seguir.

- Mas será que não tem justiça nessa vida? Eu treino, corro, apanho do Figueroa e não adianta? Será que eu nunca vou ganhar deles e ser campeão? Será que Deus existe mesmo?

Pelo que se viu no ano seguinte, em 1977, a ira santa de Tarciso deu resultado. Porque eles começaram a chegar: Éder, a bomba mineira de Vespasiano. Tadeu Ricci, parceiro de Zico do Flamengo. Ladinho, o maior lateral da história do Atlético-PR. André, centroavante experiente, matador, matreiro. Oberdã, o xerife que chegou fincando placa de propriedade na área do Grêmio. Todos estes se juntaram aos vaiados Ancheta, Iúra e Tarciso para formar um esquadrão lendário sob o comando do não menos lendário Telê Santana. E o Grêmio nasceu. Ou renasceu, para não arrumar briga com os historiadores. Sim, porque depois daquele 25 de setembro, há 30 anos, foi moleza: campeão brasileiro em 1981, da Libertadores e do Mundo em 1983, a fartura dos anos 90. Mas na década de 70, não. Era preciso suar sangue para ganhar do Inter. Era preciso recomeçar. Por isso nada era mais importante para o Grêmio do que o Gauchão de 1977.

Com o Telê, o Grêmio adotou métodos profissionais. Os resultados apareceram - diz Iúra, um ex-vaiado convertido em símbolo de raça.

Eram 42 minutos do primeiro tempo quando Tarciso bateu falta pela direita. O Olímpico silenciou. A bola sobrou para Tadeu Ricci, que atraiu a marcação de Caçapava e Gardel e enfiou entre os dois. Quando André Catimba ajeitou o corpo, o tempo parou. De pé trocado, lado esquerdo da área, ele encontrou o ângulo direito. Grêmio campeão, 1 a 0, enfim.

André saltou de alegria. Era para ser um salto mortal, mas o baiano de olhos verdes se espatifou feito saco de batatas: abriu uma distensão, uivou de dor, saiu de campo. Mas e daí? Lá estava Benitez - o paraguaio cortejado pelo Grêmio meses antes - agachado, olhar perdido. Vencido. Jair, Batista, Marinho Perez, Valdomiro, Caçapava. Eles iam perder. André Catimba: foi ele quem fez os colorados sorverem o cálice de fel após oito anos.

A crônica - O jogo não teve a movimentação técnica de outros Gre-Nais, nem chegou a ter jogadas, empolgantes, com freqüência. Teve duas características, ditadas pelo gol de André. O Inter começou mais cauteloso, fazendo questão de prender a bola e só indo à frente com segurança. O Grêmio mostrava mais força ofensiva, embora no início sentisse a marcação por pressão do adversário.

Como maior preocupação defensiva Gardel em cima de André (Marinho sobrava), Vacaria matava Tarciso com a ajuda de Caçapava, enquanto o resto marcava por setor. Mesmo assim o Grêmio levava ligeira vantagem tática, pois a movimentação e postura de seus jogadores era melhor. Tanto que ia à frente com mais perigo do que o adversário. No entanto, o primeiro lance perigoso de gol só foi ocorrer aos 19 minutos. Caçapava demorou para sair com a bola da defesa, Éder recebeu um passe de Iura e chutou forte para Benitez fazer boa defesa.

Aos 22 minutos o Grêmio teve uma grande chance de abrir o marcador, quando Gardel colocou a mão na bola dentro da área, em jogada que sua defesa tinha dominado, assustado com a proximidade de André e Éder. O juiz assinalou, os jogadores do Inter reclamaram muito, fizeram catimba, mas Luis Torres confirmou o pênalti. Tarciso, encarregado da cobrança, chutou forte, mas seu pé bateu no chão e a bola desviou para fora, pelo lado esquerdo de Benitez, que saltara para o canto direito.

O pênalti perdido deu moral ao Inter, sua torcida começou a gritar. Mas o Grêmio era melhor em campo e numa jogada rápida, acabou fazendo seu gol. Aos 42 minutos, Tarciso bateu uma falta pela direita, a bola veio para Tadeu que fez um "corta-luz" levando o seu marcador. Iura, com a bola, atraiu a marcação de Caçapava e Gardel e deu para o lado esquerdo onde entrava André. O centroavante ainda trocou de pé e chutou forte, bem colocado, no ângulo direito de Benitez que pulou inutilmente. Aí o trabalho do Grêmio foi só esperar terminar o primeiro tempo.

Para o segundo, em desvantagem, o Internacional voltou mais ambicioso, enquanto era a vez do Grêmio prender a bola, segurar o resultado. Buscando mais força, Gainete tirou Bereta (Batista foi para lateral), entrando Jair e Santos saiu para Dario entrar. O Inter foi cercando, Telê colocou Alcindo no lugar de André, que se lesionara na comemoração do gol. Depois foi a vez de Wilson substituir Iúra o Grêmio foi dando cada vez mais espaço ao adversário, enquanto esperava o tempo passar.

O clima do jogo ficou muito nervoso alguns jogadores já deixavam a bola para ir com mais violência no adversário. Mas Luis Torres ainda controlava as ações. Éder já tirava bola em sua área pelo lado direito, o Grêmio ia recuando, tentando jogar em contra-ataques, uma tática que sempre deu os melhores resultados contra mesmo adversário. A defesa do Inter avançava, procurando se juntar ao ataque. O tempo ia passando, entrou nos 15 minutos finais, quando começou, pouco a pouco, a invasão de campo pelos torcedores. Primeiro os do Grêmio, eufóricos com a vitória. E a invasão de campo aconteceu porque a torcida achou que a partida estava terminada, quando o juiz paralisou uma jogada aos 42 minutos. Houve invasão geral, alguns jogadores do Inter brigaram com torcedores, acabou abandonando o estádio a partida teve de ser suspensa. O Grêmio fez sua festa, só não pode complementá-la, embora a euforia dos torcedores fosse justa, o time jogou melhor, merecia sair vitorioso. Teve a melhor campanha do campeonato, foi o melhor no Gre-Nal da decisão. Agora a questão se transfere para os tribunais, o Grêmio com a garantia de ter vencido dentro de campo, enquanto o Inter desesperado vai tentar mudar o resultado no TJD. E só se consola em ter prejudicado a grande comemoração do adversário.

GRÊMIO: Corbo, Eurico, Cassiá, Oberdan, Ladinho, Vitor Hugo, Tadeu, Iúra (Vilson), Tarciso, André (Alcindo) e Éder.

INTER: Benitez, Beretta (Jair), Gardel, Marinho, Vacaria, Caçapava, Batista, Escurinho, Valdomiro, Luisinho, Santos (Dario).

Arbitragem: Luis Torres, auxiliado por Adão Alipio Soares e Paulo Serafim. Local: Estádio Olímpico.

Fonte: Zero Hora, 25/9/07 (adaptado)

posted by Marcelo Xavier 3:10 PM


Segunda-feira, Junho 25, 2007

 
Gre-nal
O HOMEM NU
Ou a história de uma foto que parou o
Campeonato Gaúcho de 1973


A foto polêmica

Abril de 1973. Causa escândalo de proporções consideráveis uma foto publicada na coluna diária do chargista Marco Aurélio, do jornal Zero Hora. Na imagem, o jogador Elias Figueroa, do Internacional, aparecia num vestiário do clube se pesando. Em outra, o zagueiro chileno aparecia passeando pelo recinto só de toalha, nu da cintura para cima. Imagens que reportavem um incidente semelhante, ocorrido com Jaqueline Kennedy, que foi flagrada por paparazzi tomando bano de sol numa ilha grega como veio ao mundo, nuinha, nuinha.

O escândalo ganhou as ruas, numa progressão fulminante. A diretoria colorada decidiu divulgar nota cendenando veementemente a atitude dos editores do jornal em publicar as fotos clandestinas, tiradas (inexplicavelmente) através de alguma basculante da concentração dos Eucaliptos. Pior: o então presidente da Federação Gaúcha de Futebol, (FGF) mandou cancelar todas as rodadas dos campeonatos da entidade no fim de semana seguinte. Ao parar o Gauchão, Hoffmeister conseguiu colocar mais fogo na fogueira. O episódio agora ganhara proporções continentais.

A Loteria Esportiva repudiou o ato da Federação. O jogo Internacional e Aimoré constava na loteca. A entidade também decidiu excluir os clubes gaúchos das próximas apostas. A história agora repercutia nos prtincipais órgãos de imprensa de todo o país. Até a revista Veja pautou entrevista com Marco Aurélio. Em poucos dias, as nádegas de Figueroa se tornaram as mais famosas do Brasil. E a partida foi à sorteio.

O ex-centroavante Claudiomiro, que integrava a equipe do Internacional naquele tempo, se recorda da história. "O cara tava se fardando para o treinamento, e claro que tava todo mundo no vestiário, era muito acanhado, e todo mundo tirava foto, e o cara foi lá e tirou", relembra. "É o tipo de coisa que mudou depois do Beira-Rio, porque aqui não teria esse tipo de coisa". Ele também condena a ousadia do fotógrafo: "eu achei aquela coisa meio ridícula, porque a pessoa tem que ser preservada, hoje tá tudo liberado, mas naquela época não, e até o campeonato parou. O cara tava se vestindo para ir trabalhar, e aí acontece uma coisa dessas...".

Já outro ex-companheiro de Figueroa e hoje treinador Cláudio Duarte, entende que tudo não passou de "armação" e que contaria com a conivência do próprio zagueiro colorado. "Na época que ele chegou, ele era considerado bonito, galã, e todos sabiam que a gente treinava não no Beira-Rio,mas os Eucaliptos. E a janelinha do vestiário tinha vista para tudo¿, diz. Claudião afirma que era tudo "armação do gringo". "O gringo era bom de mídia, declamava Neruda, metido a bonitão, tudo, e na cabeça da gente, ninguém deu bola". Duarte diz que eles conheciam vários fotografos da imprensa de Porto Alegre, e o trânsito livre facilitava esse tipo de "assédio". "Só estava ele, e ele saiu antes. Então, acho que deixaram que deixaram a janela aberta, foi combinado que um ia entrar, e todos nós desconfiávamos disso, não se sabe disso, mas na nossa cabeça, o parecer era esse".

O artífice da brincadeira, Marco Aurélio, explica a história. "A Jacqueline Kennedy Onassis havia sido flagrada nua por paparazzi em uma ilha grega. O escândalo foi total. Eu resolvi tentar o mesmo estardalhaço por aqui", diz. "Combinei com o então fotógrafo de ZH Hipólito Pereira: vamos fazer o mesmo com o Figueroa. Fomos os dois para o Beira-Rio, mas eles estavam nos Eucaliptos. O segurança não nos deixou entrar. Esperamos o final do treino e nos esgueiramos até uma janela basculante do vestiário. Eu dei o pé para o Hipólito subir. E ainda assim ele foi obrigado a erguer a máquina e disparar, nem viu direito o que estava acontecendo no vestiário".

Marco Aurélio revela que Porto Alegre inteira se solidarizou com Figueroa: "Ele ligou para contar que estava recebendo ligações de autoridades, de dirigentes da dupla Gre-Nal, de gente da Igreja, enfim, não houve quem não lhe prestasse apoio naquele momento. Para todos eles, o Figueroa se mostrava indignado com a situação", conta. Porém, o chargista salienta que era amigo do zagueiro chieleno e que ele não o criticou pelas fotos e nunca exigiu os negativos.

- Ele era meu amigo. Nunca se queixou com rancor.

O jornalista explica que a repercussão foi gigantesca: "Concedi dezenas de entrevistas. O Flávio Cavalcanti, a revista Veja e as agências nacionais e internacionais me ligaram, queriam saber como foi possível fazer a foto nua de um dos zagueiros mais famosos do mundo". Contudo, revela que foi ameaçado pelos torcedores do Inter. Ele conta que, em desagravo, o jogador cogitou deixar o clube. "Para eles, eu era o culpado pela decisão do Figueroa de deixar o Inter. Os caras me ameaçaram bater em restaurantes, no trânsito e na rua". Marco também diz que, apesar dos inúmeros pedidos de agências de notícias, o jornal decidiu não ceder o material".

- O Maurício Sirotsky (fundador da RBS) não permitiu a venda. Como prova de que a foto havia sido apenas uma iniciativa jornalística, mandou que entregássemos o filme ao Figueroa.

Se todos condenaram as fotos, houve quem gostasse da interdição do Campeonato Gaúcho. O seu nome era Dino Sani, treinador do Internacional. Disse que a paralisação do certame permitiu que o tempo permitiu que o Departamento Médico recuperasse o exército de jogadores lesionados. O Colorado retomou o Gauchão voando em campo,e conquistou naquele ano o Pentacampeonato. Depois do título, Sani foi procurar Marco Aurélio. Em segredo, lhe confessou:

- Você venceu o campeonato para nós - disse.

E o zagueiro, que quase saiu do clube, começou a gostar da coisa. Para fugir do bulício do episódio do ¿jogador pelado", ele convidou sua esposa, Marcela, para almoçar longe de Porto Alegre, mais precisamente em Novo Hamburgo. Não conseguiu. Todos lhe apontavam o dedo e vinham falar com ele, dizendo: "é o jogador pelado! É o jogador pelado! É o jogador pelado!".




Fontes:
Zero Hora
Ruy Carlos Ostermann, Meu Coração é Vermelho.
David Coimbra e Nico Noronha, A História dos Grenais.
posted by Marcelo Xavier 9:18 AM


Quarta-feira, Março 07, 2007

 
Gre-Nal
PAPAI NOEL É AZUL
Ou como um torcedor acabou virando o protagonista de uma das
maiores viradas gremistas em clássicos



Paulo Santana é carregado no fim do jogo


Era quente naquela tarde de dezembro de 1961. O Internacional já tinha sido dias antes declarado campeão, mas a tabela marcava como último jogo do Campeonato Gaúcho o Gre-Nal. E naquele tempo, o último clássico [Gre-Nal 157, ocorrido no estádio dos Eucaliptos, dia 10/12] decidia nos costumes do povo que cor seria o Papai Noel, vermelho ou azul.

Hoje, me espanto que isso pudesse ter tanta importância, mas tinha. Haveria de ser o Gre-Nal mais importante de minha vida. E, pelo seu desenvolvimento, creio que para tanta gente que o assistiu foi um jogo inesquecível.

Alipelos vinte minutos doprimeiro tempo, o Internacional já vencia por um a zero. Altemir, lateral-direito do Grêmio, era expulso ainda na primeira etapa. Contra dez homens, não foi difícil fazer o segundo, também de autoria de Alfeu, escore dos primeiros 45 minutos.

Lá pelos 18 do segundo tempo, houve uma falta contra o Inter e Nadir, que havia entrado no lugar de Élton, cobrou-a com um chute forte, que bateu na barreira e entrou no canto ewsquerdo: 2 X 1. Dez minutos depois, Marino empatouo jogo, numa cruzada de Mílton. Parecia incrível, mas estávamos a poucos minutos da final e podíamos até ganhar o jogo já perdido, com inferioridade numérica gremista em campo.

Até que o inesquecível Vieira, da ponta-esquerda, cinco minutos antes de perder a partida, cruzou uma bola alta para a área pequena. Juarez cabeceou livre, com o goleiro Silveira batido. Era inacreditável. O Grêmio praticava uma das maiores viradas d história do Gre-Nal: 3 X 2.

A torcida gremista festejava aquele gol como se fosse um título. Havia desânimo e pranto entre os torcedores colorados. Silveira, o arqueiro alvi-rubro, desmaiou após o gol espetacular de Juarez. Carregado na maca, foi substituído por Cestari.

Faltava entrar em campo, com o jogo findado, o Papai Noel azul. Sabe quem tinha sido escalado? Exatamente este que está recordando o fato. Tinha eu então 22 anos e fui convidado para a façanha.

Dias antes, prepararam-me uma vestimenta de seda azul, com gorro de pompom e tudo. E fiquei eu no vestiário todoo tempo, já dentro da indumentária, esperando apenas para calçar as botas, que eram de número 39, enquanto eu calçava 41.

Quando o Inter fez o segundo gol, tirei a quente roupa de Papai Noel e coloquei numa sacola. Nada mais havia a fazer, ainda mais com a desvantagem de dez homens em campo. Mas, à medida em que o escore ia se modificando, eu ia colocando as calças, a blusa, o gorro, na expectativa de entrar no gramado. Quando explodiu o terceiro gol, o massagista Biscardi já passava sabonete em meus pés, no objetivo de conseguir enfiar neles as botas apertadas.

A gente ficava naquele vestiário da cancha de basquete [do lado da rua Barão do Guaíba com Silveiro]. Havia uma porta de ferro e a tela separando-a da quadra. Quando o árbitro [Omar Rodrigues] terminou a partida, atirei-me contra ela, procurando ultrapassá-la. Policiais e funcionários da Federação tentaram impedir à força a minha entrada.

Os dirigentes e os reservas do Grêmio empurravam-me Consegui passar por aquela barreira, mas percebi que não havia mais pompom no meu gorro, nem a barba postiça branca no meu queixo, que haviam sido arrancados no sururu. Mesmo assim, entrei em campo sob os vivas da torcida gremista.

Fui levantado pelos jogadores tricolores e levado até as sociais coloradas, que assistiam arrasadas ao meu desfile triunfante.

Cumpria-se uma tradição de muitos anos. Fui para o centro da cidade, cercado por duas loiras espetaculares. Era o carnaval gremista que se espraiava pelas ruas. Dali a pouco, na Borges de Medeiros, o mais numeroso cordão colorado vinha em direção contrária - aliás, o Internacional havia sido o campeão. E nem a vitória gremista conseguira arrefecer-lhespor inteiro o ânimo.

Quando aquela massa vermelha cruzou por nós, eles me atacaram. Subi num bonde-gaiola e eles entraram junto, perseguindo-me. Levei uma boa surra e minha roupa e minha roupa de Papai Noel foi inteiramente esfrangalhada.

Nunca mais vou me esquecer daquela impossível vitória. Nem os riscos que corri para apenas afirmar uma rivalidade que continua séria mas tinha muito mais imaginário e pitoresco que nos dias de hoje.

Depoimento do cronista Paulo Santana à Placar "Os Grandes Clássicos do Brasil", de junho de 1991.


Ficha do jogo: Gre-Nal 157 (10/12/1961):

Inter: Silveira (Cestari), Ari Hercílio, Ezequiel, Zangão, Sérgio Lopes, e Kim; Sapiranga, Alfeu, Paulo Vecchio, Osvaldinho e Gilberto Andrade.

Grêmio: Irno, Altemir, Aírton, Ortunho e Mourão; Élton (Nadir) e Mílton, Cardoso, Marino, Juarez e Vieira.

posted by Marcelo Xavier 8:49 PM


Terça-feira, Janeiro 23, 2007

 
Memória
FAROESTE CABOCLO
Limpando as unhas com a ponta do seu facão de três listras, Daison Pontes costumava advertir aos centroavantes que a dupla Gre-Nal contratava de fora do Estado: "para ganhar o Gauchão, tem que entrar na área em Passo Fundo"


Fita de bangue-bangue: João e Daison em ação

Dura mesmo era a vida dos atacantes naqueles anos 60/70. Eles sabiam que no fim da RS-153, depois de cruzar por campos cobertos de soja, estava Passo Fundo - e lá, à espera deles, sem disposição para mesuras com visitantes, estariam os irmãos Pontes, João (E, na foto) e o mais velho, Daison, uma feroz dupla de centrais. Em campo, todos entendiam por que Daison repetia que para ser campeão um time precisava passar por Passo Fundo. Hoje, a vida parece mais fácil para os atacantes. Jogar em Passo Fundo, na era dos Pontes, era um teste de coragem.

- A gente só não admitia desrespeito - lembra o hoje aposentado municipal Daison Pontes, 67 anos, já sem os cabelos longos de antes, mas com uma forma física que nem de longe lembra a idade.

Desrespeito, no mundo dos Pontes, podia ser um olhar, um sorriso na hora errada, firulas ou uma cuspida, como o atacante Nestor Scotta ousou dar em um jogo Grêmio e Gaúcho. Argentino, habituado a batalhas em seu país, Scotta entendeu no fim do jogo que complicado mesmo era jogar em Passo Fundo.

- Eu disse 'vamos conversar daqui a pouco' e o segui por todo o campo.

Não apenas seguiu. Scotta nunca mais esqueceria aquela violenta dor nas costas provocada por uma joelhada. Foi assim com muitos que violaram a lei dos irmãos. Alguns, habilmente, faziam questão de uma boa relação com Daison. João Severiano era assim. Outros mantinham um combate duro, mas leal. Batiam e apanhavam em silêncio, como fazia Juarez, o Tanque - até o dia em que foi jogado contra o muro. Aí, protestou. "Você quer me machucar?", perguntou àquele outro muro que estava de pé, diante dele.

Quem vai à cidade entende bem por que Daison, nascido em General Câmara, ficou tão identificado com Passo Fundo. Os torcedores nunca viram nele apenas um zagueiro violento, mas alguém que não suportava perder. Para isso, lutava sempre, às vezes dando broncas no próprio irmão (cinco anos mais jovem, falecido em 2005), mesmo correndo o risco de ir além de um certo limite. Foi expulso 18 vezes e, em uma delas, condenado a ficar um ano e seis meses fora do futebol por agredir o árbitro José Luiz Barreto em 1974, em um jogo em Santa Maria, ao discordar da marcação de um pênalti.

- Era a minha lei. O jogador tinha de ser o mesmo em casa e fora.

No dia da agressão em Santa Maria, precisou arrombar a porta do vestiário, correr pela rua, atravessar um cemitério e esperar pelos amigos para não ser preso em flagrante antes de voltar a Passo Fundo. Foi saudado como herói por companheiros e torcedores. Este foi o Daison que virou mito, lembrado muito mais pela raça, mas havia também o outro lado, o do grande zagueiro.

- O Foguinho (Oswaldo Rolla, antigo treinador) sempre me dizia: se o Daison tivesse a cabeça do Calvet (zagueiro nascido em Bagé que chegou à Seleção), seria o melhor zagueiro do Brasil - lembra Armando Rebecchi, atual técnico do Gaúcho.

Daison sabe que tinha talento, como dizia Foguinho. Abre uma Revista do Esporte de 1963, sobre o sofá azul da casa da filha mais velha, onde mora, e mostra a foto de sua chegada ao Flamengo, espalha dezenas de imagens antigas, lembra das viagens e fala com orgulho dos filhos Denise (do primeiro casamento), com quem está morando, Manoela, de 21, Michele, de 16, Dealeon, de 25 anos - que esperava ver dar seqüência à linhagem de zagueiros, mas que preferiu o vôlei - e do casal de netos. Olha de novo para as fotos, aponta para uma do Inter de 1975, diz que Bibiano, o mais jovem dos três irmãos Pontes, foi melhor do que Figueroa, e destaca:

- Não fiquei rico, mas ganhei o suficiente para não precisar pedir favor a ninguém.

Passo Fundo sempre respeitou um caráter assim, pouco afeito a concessões, que aprendeu a admirar nos 10 anos do zagueiro no Gaúcho, de 1965 até parar. Basta circular pela cidade para perceber. Duas vezes por dia, de manhã e no fim da tarde, Daison liga seu Opala 1987 verde-escuro e vai ao Centro. Estaciona na Avenida Assis Brasil, que corta a cidade e, de bermuda, camiseta e chinelo de dedo, começa a caminhada em direção à Lotérica Jordania, de seu amigo turco Zuair Mahmud, situada bem em frente à estátua de Teixeirinha. É um ritual, ele não pode ficar sem a conversa diária com os amigos. No caminho, como ocorreu na última terça-feira de muito sol em Passo Fundo, foi chamado, entrou nas lojas, motoristas buzinaram, pararam a seu lado para uma saudação ou uma brincadeira. Daison sorria orgulhoso. É a saudade da torcida que bate forte. Ela sabe que um Daison no time de hoje já faria diferença - ao menos para deixar a vida dos atacantes um pouco mais complicada.

Fonte: Zero Hora, 21/01/2007. Reportagem de Mário Marcos de Souza: "O tempo em que havia guerra" (adaptado)
posted by Marcelo Xavier 5:46 PM


Domingo, Novembro 19, 2006

 
Clássicos
RAPSÓDIAS DE GERALDÃO
Centroavante do Inter venceu o Campeonato em dois gre-nais


O torcedor do Grêmio não parava de comemorar o inédito título nacional de 1981: em maio, Baltazar matou a bola no peito, fuzilando impiedosamente o goleiro Waldir Perez, do São Paulo, de fora da área, foi dele o gol do título, em pleno Morumbi. No Olímpico, todos passarama aceditar no bi, uma ambição inefável para quem viveu o outro lado do tri invicto do inimigo, Internacional. No rastro do êxito, o tricolor resolveu ir às justas contra o arqui-rival: foi à Federação Gaúcha de Futebol, e comprou o passe do colorado Batista. Provocação, ou xeque-mate? a verdade é que, tão preocupado com a aquisição do ex-meia do Inter e com a campanha de 1982, o Grêmio acabou esquecendo um pequeno problema que cresceria como um baobá. O seu nome era Geraldo da Silva, mais conhecido como Graldão.

Refugado na Azenha quase como um fracassado, coube ao colorado a providência de contratar o centroavante demitido do Olímpico. Parecia ser o troco dado pelos dirigentes do Beira-Rio pela contratação de Batista, por parte dos gremistas. Um cronista esportivo da época,o tricolor Paulo Santana, no entanto, como o Velho do Restelo, apontou para o erro. ele quebraria lanças pela permanência do ex-atacante de seu clube do coração. Santana chegou a ensaiar até uma campanha, do tipo: "Fica, Geraldão", mas foi inútil. Contratado como parceiro de posição com Baltazar, o ex-Corínthians era considerado velho demais (32 anos). O problema é que, aos olhos de muitos, o "artilheiro de Deus" não parecia confiável nos Gre-nais. No fim, o Grêmio perdeu o título de 81 para o Inter. sem destino, Geraldão voltou para São Paulo...

Porém, com engenho e arte, e usando a máxima de que: sem centroavante, não se ganha título jamais", o diretor de futebol colorado, Frederico Balvé, velho conhecedor de centroavantes, resolveu apostar em Geraldão. E trouxe o ex-camisa 9 azul para o outro lado da José de Alencar.

A direção do Grêrmio apostava todas as fichas em Baltazar. E fez ouvidos moucos à crônica. Com o 'Artilheiro de Deus", o tricolor acabou perdendo o tão sonhado bi brasileiro para o Flamengo de Júnior, Mozer, Raul, Adílio, Andrade e Zico, em pleno estádio Olímpico. Porém, a torcida tricolor passou a acreditar na redenção em Batista. Mas o Inter estava em seu caminho, e no time, Geraldão. ele seria o protagonista dos clássicos Gre-Nal de novembro de 1982. O certame seria decidido num hexagonal, contudo as finais ficaram reservadas aos clássicos: o primeiro, dia 7 de novembro e o segundo, dia 28.


Pior para Émerson Leão, o goleiro do Grêmio. Em 21 dias, conseguiu tomar cinco gols do centroavante colorado - respectivamente Três no Beira-Rio e dois no Olímpico. No primeiro jogo, Renato Portaluppi fora expulso ainda no primeiro tempo. Ernesto Guedes, o treinador do Inter, não pôde ver o jogo da casamata: havia se acidentado com uma arma na semana anterior. Mas o estilista dos clássicos do gauchão daquele ano foi, justamente, Geraldão. Foi mais olímpica das façanhas. Até aquela data, nenhum atleta até então havia conseguido operar tamanha mazorca em apenas dois jogos.

A primeira partida foi uma rapsódia de Geraldão. Tudo se iniciou com uma confusão entre os zagueiros gremistas Leandro e Vantuir. Num átimo de segundo, o centroavante colorado irrmompeu a área tricolor, soltando labaredas das narinas, como um búfalo selvagem. Em câmera lenta, o bico da sua chuteira cingiu a bola. Leão se esparramou no gramado como um cachorro que cai do caminhão de mudanças. Já na segunda etapa, Geraldão veio com mais ímpeto. Era uma vendeta pessoal. Ainda havia mais.


Foi quando, logo no fim do jogo, os relógios pararam, o coração dos colorados também. Os torcedores azuis cerraram os olhos. Geraldão recebeu a bola. Numa progressão fulminante, lá estava o camisa 9 do Inter cara a cara com o arqueiro gremista, dessa vez ao ser lançado por André Luis. O atacante esperou o bote de Leão, encurtou a distância e o deixou na saudade. O 3 a 1 do Beira-Rio fez o tempo parar como as trombetas de Jericó - mas ainda havia a batalha do Olímpico.


No segundo jogo, Guedes e Renato estavam em seus postos. Portaluppi, porém, conseguiu ser novamente mandado para o chuveiro por Carlos Martins, aos 27 minutos do primeiro tempo. Faltavam ainda apenas dois gols para que Geraldão se sagrasse o artilheiro do Campeonato Gaúcho de 1982. E, como se tocado pelas franjas do Fado, os deuses do futebol lhe concederam a graça divina: na finalíssima, com o olho rútilo e o lábio trêmulo dos profetas, o atacante colorado prometeu os dois tentos à torcida vermelha. E a profecia se cumpriu, como se estivessem gravadas nas escrituras há 10 mil anos atrás. No último, Geraldão roubou a bola do lateral tricolor Paulo Roberto, e o que se ouviu foi o frêmito e o terror instaurado nas sociais do Olímpico, ao verem o ex-atleta gremista ("refugado na Azenha quase como um fracassado,") se transformando, naquele momento histórico, no carrasco do Grêmio. Mais: Geraldão se tornava, diante de todos, um dos mais bem sucedidos homens Gre-Nal de todos os tempos.


Como não poderia deixar de ser, um grupo de samba imortalizou as rapsódias da bola de Geraldão com uma marcha carnavalesca, que se tornaria muito popular na época, num disco comemorativo ao tricampeonato de 1983, com Geraldão novamente sendo o artilheiro daquele Campeonato.

Gera, gera, gera, Geraldão
É um grande artilheiro
Alegria do povão
Saiu do Parque
Foi para a Rua Javari
Com a sua grande força
Nunca foi de se cair
Foi ao Olímpico, uma desilusão
Chegou ao Beira-Rio para ser o campeão



posted by Marcelo Xavier 3:18 PM


Quarta-feira, Setembro 06, 2006

 
Entrevista
O PASSARINHO
Poucos jogadores que vestiram a camisa
do Grêmio vestiram com tanta dedicação como Yúra



Da várzea para o Olímpico

Ele nunca foi considerado um atleta exemplar, mas era dono de uma garra inexpugnável. "Eu fui 80% gremista e 20% jogador de futebol", diz Yúra, nascido Júlio Titow, 54 anos. Oriundo da várzea, ele subiu para o grupo profissional do Grêmio em 1972 e tornou-se titular da equipe em 1974. Sofreu derrotas até 1977, quando finalmente conquistou seu primeiro título, sob a batuta de Telê Santana. Para Yúra, Gre-Nal não era jogo, era guerra. Deixou o futebol cedo (27 anos), depois de rápida passagem pelo Criciúma, para cumprir contrato. Nesta entrevista, o ex-meia tricolor, também conhecido como "Passarinho", fala de sua relação com o futebol amador, a história no Grêmio e sobre o time de 77, montado por Telê.


Como foi o começo no futebol?

Eu sou muito feliz pelo que me aconteceu no futebol. Porque eu vim da várzea, coisa inédita, direto para o profissional,com 19 anos, e isso é importante: eu não tive a infra-estrutura física e alimentar que o departamento amador dá. Vim da Vila Floresta, do Itapeva, um clube de várzea, não tinha boa alimentação, e fui para o choque, pesava 59 quilos. Comecei a treinar no Grêmio um mês depois. Teve um fato interessante, porque, na primeira semana, a diretoria gremista já foi me buscar em casa, preocupado porque eu não aparecia nos treinamentos. acharam que eu havia abandonado. Eu não tinha, eu estava há três dias dormindo,e a minha mãe preocupada porque eu não acordava,nem me alimentava direito, por causa do cansação, eu pesava 59, e cheguei na infra-estrutura do Grêmio onde a gente colocava aquelas botas de ferro. eu não tinha estrutura para aquilo, e tinha que fazer um trabalho especial. Hoje o pessoal reconhece. Eu passar para 62 quilos mas perdia três, quatro por jogo, impressionante. Eu não erao cara fanático por treinamento, isso veio da minha estrutura.


Teu pai é russo?

Meus pais são, minha irmã nasceu na Itália, meu vô é alemão, mas eu e meu irmão somos brasileiros. Fugindo da guerra de navio, paramos num acampamento na Vila Dique, era onde deixavam os refugiados. A história foi como aconteceu no filme Girassóis da Rússia, com o Marcelo Mastroianni. Mas eu nasceu em Porto Alegre, na Vila Floresta. Engraçado que meu pai não entendia nada de futebol, mas depois virou colorado, como toda a minha família, e acho que é por isso que nasceu em mim essa paixão pelo Grêmio. Eu digo que eu não sou atleta: eu fui 80% gremista e 20% jogador de futebol.


Como começou o interesse?

Sei que, eu estudava, eu largava tudo para jogar, pulava a janela para jogar. E naquela época, sábado e domingo, o pessoal que montava times me pagava para jogar, na minha zona, na verdade, eu era o melhor. Meu irmão jogava bem,mas ele era mais velho, e eu cheguei ganhando sempre. Comecei antes dos quatorze anos no Itapeva,mas a Federação não permitia. E com doze, eu era titular, eu jogava no segundo quadro, mas jogava no primeiro, eles me botavam lá. O Itapeva, que não ganhava nada há anos já ganhou o primeiro título, tinha o campeonato da cidade, fomos vice campeão porque eu não joguei a final. Foi quando o Abílio dos Reis foi me buscar.


Foi ele quem te descobriu no Itapeva?

É, teve o campeonato de várzea da cidade, fomos jogar contra o Concórdia, um dos grandes times da época. Naquerla época, tudo o que era esquina tinha campo de futebol. Todo mundo queria jogar nos times, Inter, Cruzeiro, Grêmio, mas eu achava a várzea espetacular, é uma coisa linda de se falar. A gente enchia ônibus para ir no campo do adversário. A gente tinah que ir com uma torcida forte, senão tu acabas apanhando. Tinha o Vila, o Wallig, o Liberdade, o Pombal, são coisas importantes.


Era amadorismo ou os bons ganhavam alguma coisa?

Na minha época, eu estava servindo o Exército, e eu não servia no fim-de-semana porque eles me pagavam para outro soldado tirar a minha hora de serviço. Mas eu não tinha dinheiro, eles pagavam e eu jogava no domingo. E no Exército era outra briga, porque eles queriam que eu jogasse lá também! E eu era goleador, e os tenentes me prendiam porque eu ia jogar na várzea.


E como o Abílio te descobriu?

Eu gostava de narrar jogos, narrava até no banheiro. Contei até para o Alcindo, que eu narrava os jogos jogando com o Aírton, com o João Severiano, eu dizia que jogava com todos eles. Me lembro que, no primeiro dia que eu cheguei no Olímpico, eu vi o Alcindo, e aquilo me marcou muito. Ver o cara que era o meu ídolo. depois fui jogar com ele em 77. Havia um centromédio nosso, o Cacau, que foi treinar no Grêmio, e ele se destacou. O Abílio foi ver esse garoto, porque eles tinham mudado a idade do Juvenil de 18 para 20 anos. Falaram para ele que, se podia mudar, tinha um garoto do Itapeva, o Yúra. Ele foi ver o cacau e a mim. E o Abílio me chamou. E eu estava num canto depois do jogo, e tinha feito três jogos. Eu nem sabia que eles estava lá, sabia só que ele tinha procurado o Cacau. Chegou o presidente do clube, e mandou o rapaz, e o Abílio estava me procurando, ele queria aquele tal ponteiro esquerdo, e eu jogava na ponta.


Aí tu foste para o Juvenil.

Fui. Cheguei lá, estava o João Severiano, que era trinador. Cheguei com um problema físico, me recuperei, e comecei a jogar. Apareceu um jogo: Grêmio e Atlético Mineiro, no Olímpico. E queriam um ponteiro-direito. Perguntaram para ele se podiam tirar o Catarina para ser reserva no jogo. Daltro Menezes era o treinador. o João disse: acho que tem um aqui que é mais novidade para vocês. ele pode ficar no banco, e tenho certeza que ele pode ser usado no meio, também. Me convocaram. E eu entrei no jogo. Carlinhos era o titular na ponta, se machucuou e eu entrei. Eu entrei e fiquei cara a cara com o Mazurkiewicz, foi a famosa canela de vidro, quando o Paulo Santana [jornalista esportivo] disse na crônica: como é que o Grêmio lança um garoto sem preparo, com canelinha. Eu fiquei magoado com ele, porque depois eu mostrei que a minha canela não era de vidro. Eu fui para a guerra em muitos Grenais e enfrentei o Daison Pontes [zagueiro do Gaúcho de Passo Fundo, dos anos 70]. Tu vê que futebol é uma coisa engraçada. Eu tentei driblar o Mazurca naquele momento, fiz a jogada de linha de fundo, e ele me calçou fora da área. Eu tinha uma velocidade violenta, e ninguém acreditou quando eu entrei, faltavam apenas quinze minutos de jogo, empatamos. Minha sorte que, logo em seguida, na partida seguinte eu fiz o gol da vitória, com o Palmeiras. Depois fui no Maracanã, fiz gol lá. Foi uma seqüência, e não voltei mais ao Juvenil. Voltei só para um Grenal da categoria no Beira-Rio, e fiz dois gols de uma vitória de três a zero. O Joãozinho enloqueceu.

Eu senti que o clássico era a chance de se consagrar. Eu peguei aquilo já no Juvenil. Depois, não deixaram eu descer mais. Me lembro que no Inter tinha o Falcão e o Carpegianni, que eu acho que foramos maiores jogadores que eu vi. Eu joguei ate os 27 anos, e tive oito anos de Grêmio. Eu joguei contra uma máquina. E eu me salientava. Muitos Grenais eu era chamado melhor em campo, mesmo o Internacional sendo uma máquina. O Brasil inteiro não conseguia ganhar do Inter. Eu não dormia antes do clássico. Via todos dormindo,mas não conseguia. Fumava como um louco, por isso que eu engordei tanto [Yúra pesa hoje 107 kg]. O Telê Santana nos pagava por fora para mim e para o Éder para a gente deixar de fumar, amas a gente fumava escondido.


E a afirmação, como se deu?

Foi com o Carlos Froner. Saiu o Daltro, e eu permaneci no plantel. Ele chegou, o Grêmio deu os jogadores para ele. O Froner foi ver um treino da 'baba', e me viu. e reclamou comos dirigente: vocês me deram os atletas mas não deram esse magrinho que tá na baba juvenil, quem é ele? E tinha jogo contra o Flamengo, no Maracanã, e ele queria me levar. E eu tô lá no banco, sentadinho, e o Flamengo ganhando de um a zero. E chovia cântaros, eu levei um pênalti e empatamos. Depois o Loivo fez um golaço de fora da área. a partir dali, não teve dúvida. Fui jogar contra o Santos do Pelé. Fizemos uma marcaçãode cinco para marcá-lo. O Froner botava dois de cada lado, e a gente precisava só do empate. Tava nos 35 do primeiro tempo, e a gente jogando bem. Eu era o segundo a marcar o Pelé, mas ele marcava bem também. Eu jogava às costas dele, e o Santos também nao estava preocupado, porque com o empate, eles também se classificavam. Mas se o Grêmio perdesse, seria eliminado. E o Froner me tirou no intervalo, porque o Renato deu uma de Aírton, o Pelé pegou a bola e mandou na gaveta. O Froner falou: nao brinca mais comigo. E eu estava junto. Ele brincou, quis jogar bonito e se deu mal. E no segundo tempo, o Santos meteu quatro! E Froner depois me disse: a partir de agora, tu é o meu titular e tu vai ser jogador de confiança do meio.

Depois veio Sérgio Moacir [Torres Nunes, ex-goleiro e treinador]. a crônica não entendia ele,mas os jogadores adoravam ele. Eu me tornei meia esquerda, e fui goleador no Grêmio, isso em 1974! Eu podia perder para o Inter, mas tinha esse lado bom. Depois, o Grêmio quis me dispensar, mas o Telê quis ficar comigo. O presidente Fábio Koff quis me tirar do clube para mandar para a Portuguesa. Eu respondi: vou, mas vou dar a volta por cima. O Telê ouviu e não deixou. E isso foi bom para mim e para o Grêmio. E eu tinha fama de esculhembador. Tudo o que acontecia, a culpa era sempre minha. Na verdade, eu fui um líder positivo e eles não sabem disso. Eu discutia com a crônica, mas eu botava a minha cara para bater. E teve casos aí em que me acusavam de estar de noite em três lugares ao mesmo tempo. Eu poedia para concentrar na quinta, quando tinha jogo importante. E os caras ligavam dizendo que eu estava bêbado na noite. Mas eu era da noite. Porque eu não ganhava o dinheiro que ganham hoje. se ganhasse, ficava em casa. A gente era jovem, e precuisava se divertir. E os caras davam de graça tudo. Ia eu, o Beto Bacamarte, o Beto Fuscão, o Cláudio Radar. Mas o Grêmio sempre contratava alguém para a minha posição. Achavam que o problema era eu. E dizia para os dirigentes. Contrataram o Alexandre Tubarão. Contratavam outros, o Grêmio perdia, e eu voltava. Foi quando chegou o Telê.

E tu estava afastado de novo?

É, e mudou tudo. Ele era profissional, tinha também bons dirigentes, não tinha só oba-oba, aqueles que só apareciam quando tinha festa. Tinha o Nelson Olmedo e o Telê. E ele era de gabarito. Era o cara que me ensinou futebol.

O Telê era melhor que o Ênio?

Não tenha dúvida. Ele era um amigo, morava na minha zona. Eu dei força na contratação do Ênio,mas o Telê foi o maior. Ele fazia jogada ensaiada, ele não era retranqueiro, queria atacar, atacava e defendia em bloco. Isso era importante.


Como foi a história do gol de menos de um minuto?

Foram 14 segundos. Era treinamento do Telê. Os reservas tinham que focar parados, e a gente tinha que sair, a bola vinha para mim, eu passava para o André, e ele passava para o Tadeu Ricci, que ficava um pouco mais atrás. O Tadeu esperava um minutinho, para que o Tarciso corresse; então, ele esticava para o Éder, e esperava o Tarciso entrar pela direita, e o Éder que, com a perna esquerda, botava a bola onde quisesse - ele treinava os chutes num bambolê como alvo - e de dez, ele botava nove. a gente apostava chope, e ele ganhava de todo mundo. a bola ia ser para ele, e nós fazíamos com todos os times. Na semana, a jogada bnão dava certo, mas a gente fazia. O problema é que o Beto Bacamarte aliviava de cabeça. Em geral, o Tarciso fazia o gol, e começava uma zero, e os reservas ficavam putos. Mas era com os reservas parados. Aí o Bacamarte xaropeava, e o Telê acabou com isso. E nós jogávamos normalmente.

Mas no Grenal, aconteceu de a gente fazer a jogada, e eu olhei que o Tarciso não tinha se enfiado no ataque. Então eu subi. Mas o Éder viu que eu me posicionei, e o Éder lançou a bola, enquanto o Catimba chegava junto. Nem o Telê viu o gol, porque estava limpando o banquinho para sentar. O André abriu e eu fiz o gol. E ainda no Manga. Em 14 segundos, num clássico, e no Manga, e num time que era uma máquina!


Você corria muito e ainda fumava?

No começo, quando o Telê nos pagava, eu parei de fumar. Mas eu tive dois jogos horríveis, em Recife e na Bahia, que o Telê me tirou no começo, porque eu não respirava. Aí eu fui para o vestiário, e voltei para o cigarro. Não conseguia respirar e achava que foi por falta.


E a história que o Éder urinou nos chinelos do Telê, foi verdade?

Foi um repórter que inventou isso. Não foi verdade. A briga foi que o Éder chamou o Telê de corno. e quem tirou o Éder não foi o Telê: ele não prejudicava o time. O Grêmio era o melhor candidato ao título naquela época. Não foi campeão por causa disso. Quem tirou foi o presidente Nelson Olmedo. E o Vasco ganou de nós. Mas Não era verdade. O Telê até chamou o Éder na Copa do Mundo.

Fonte: rádio Band
posted by Marcelo Xavier 4:03 PM


Terça-feira, Junho 20, 2006

 
Memória
JOÃO SEM MEDO
Ou a história de um certo 'comunista
infiltrado no Maracanã'



O polêmico Saldanha

Se a derrota da Seleção Brasileira foi amarga para a torcida, para o regime militar vigente no Brasil a partir de 1964, ela foi mais amarga ainda. O Governo chegou a ensaiar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (a CPI) para investigar o fracasso do nosso escrete em gramados ingleses: a idéia só não ganhou vulto porque, como solução 'salomônica', criou-se a famigerada Comissão Selecionadora Nacional (Cosena), uma entidade que, de verta forma, mimetizava a estrutura militar que era o paradigma ideológico instituído no poder no âmbito desportivo. Ou seja, dessa forma, a ditadura visava paulatinamente investir a CBD (hoje CBF) como o carro-chefe ideológico em sua estratégia de propaganda de governo, recrudescendo uma relação futebol-poder.

Contudo, a pressão advinda de clubes e de federações, somado a uma série de péssimos resultados em amistosos a partir de então, cujo paroxismo foi a famosa derrota contra o México, em pleno estádio do Maracanã. Ali terminava, por hora, a rápida aventura da Cosena. Com o problema nas mãos, o intrépido João Havelange não poupou esforços em fazer a seleção mudar a foto.

Para tanto, escolheu o jornalista João Saldanha (1917-1990) para capitanear a pátria de chuteiras. Saldanha, que era conhecido tanto por seu talento quanto por sua verve e seu temperamento peculiar, era o que o cronista Nelson Rodrigues chamava de sujeito de 'defeitos luminosíssimos'. Explica-se: João Sem Medo, como seria conhecido, era o condottiere a quebrar lanças contra um mar de gângsters, a ¿doutrinar o escrete para não levar desaforo para casa'. Ou seja, antes de técnico, ele personificava a atitude que faltava. 'Meu jogador não dará nenhum tiro', dizia Saldanha. 'Mas, se começaram, nós vamos acabar com a guerra'.

Contradições - E a guerra começou com tiros vindos da imprensa paulista, que acusava a CBD de se render a um carioca. Pior: a ala mais conservadora do Exército o tinha como um comunista da cabeça aos sapatos. Assim, começava a campanha contra João Sem Medo. A despeito da gana de tantos contra um só, a torcida endossava a figura ilustre e popular de Saldanha no comando da Seleção. Mesmo com o aval popular, a pressão pelo tri era maior, e os interesses do Governo e o modelo de futebol proposto pelo treinador amiúde se entrechocavam Por mais contraditório que pudesse parecer, essa tensão aumentou a partir do momento em que o Brasil finalmente se classificara para a Copa de 1970.

O recém empossado presidente Emílio Médici, como entusiasta e torcedor, fez de tudo para associar a sua imagem à liturgia do esporte bretão. Demonstrava ser um iniciado, ao mesmo tempo em que passou a freqüentar estádios de futebol. Por trás dessa imagem, estava a Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência (Aerp), quer visava transformar o primeiro mandatário brasileiro no 'torcedor número 1' da nação. Ao mesmo tempo, a CBD parecia envolta em uma maré de problemas, desde derrotas em amistosos até polêmicas com outros treinadores. O estopim seria o 'caso Dario'.

Dario Maravilha era o centroavante dos sonhos de Emílio Médici. Não era craque, mas fazia gols como ninguém. 'Não existe gol feio, feio é não fazer gol', dizia. O presidente admirava o trabalho de João Saldanha, mas queria o Rei Dadá com a camisa 9 da Seleção. Os desacertos com o escrete e a repercussão negativa de alguns insucessos em amistosos abriam espaço para críticas no sentido de mudar a escalação do time titular.

Faltava a derrota - Saldanha era constantemente questionado por suas posições futebolísticas, e como profetizara seu amigo tricolor, Nelson Rodrigues, não levava desaforo para casa. O atrito entre ele e a imprensa logo começou a desgastar a sua imagem como técnico da Seleção. De sua trincheira na redação de O Globo, o lírico e parnasiano Nelson bramia como um Velho do Restelo, em sua retórica camoniana: 'nunca houve um massacre pessoal tão desumano. E o espantoso é que nós exigíamos do João sem Medo um comportamento de estátua de Abrahão Lincoln (...) Faltava a derrota, que as hienas esperavam. Mas o Saldanha tinha brio. Ótimo. Por ser brioso, tinha que sair do escrete', dizia o cronista.

Nos subterrâneos do poder, porém, Saldanha era visto como um carbonário, um revolucionário, um conspirador em potencial. Sua independência ideológica era temida. E se ele voltasse com a Jules Rimet do México como um fogoso Parsifal e usasse o seu prestigio para questionar o regime? Ou se, diante de microfones e câmeras de tevê, ele denunciasse, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, as contradições do governo militar com uma lista de desaparecidos políticos operante a opinião pública mundial? Dario se tornou o pretexto para sacar João Sem Medo. Foi quando, envenenado por repórteres a respeito da suposta pretensão de Médici em escalar o salubérrimo artilheiro Dario no ataque, que Saldanha disse, impávido e desafiador: 'O presidente que escale o ministério dele que eu escalo o meu time!'. Como refletiu Nelson Rodrigues em suas crônicas esportivas, 'a cada entrevista que João concedia, cavava um abismo'.

Linha Dura - Seguida pelo mal-estar da insubordinada e provocativa declaração, veio o patético empate com o humilde e honesto Bangu, em 14 de março de 1970, que precipitou a dissolução da comissão técnica e por conseguinte, a queda de Saldanha. Em seu lugar, Mário Jorge Lobo Zagallo foi investido ao cargo. Com o decano Zagallo, veio também a 'militarização' da CBD, chefiada pelo major Jerônimo Bastos, contando com militares como Cláudio ('ponto futuro') Coutinho e José Bonetti, entre outros, oriundos da malfadada estrutura da antiga Cosena e um neófito estudante de Educação Física, o jovem Carlos Alberto Parreira.

Como diz o historiador Gilberto Agostino, 'cabelos cortados no estilo da caserna, preparação física preparada por militares, contraditoriamente a Seleção se transformaria, dentro de campo, em paradigma do verdadeiro futebol-arte'. Já Zagallo, usando de cautela e fazendo jus ao sobrenome, não quis saber de ombrear com alguém da estatura e do poder esmagador do ditador de cinco estrelas e tratou de levar o injustiçado Dadá Maravilha para o México, embora mantendo o centroavante no banco de reservas por toda a Copa (que, segundo o 'Peito de Aço', teve que fazer uma ginástica para mantê-lo no grupo), optando pelo excepcional meia Tostão (que, desacreditado por causa da operação no olho, só foi convocado por causa de João, que acreditou nele até o fim) para vestir a camisa 9.

O tempo mostrou que a escolha foi corretíssima: com ele no ataque, mais Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza (centromédio recuado na defesa), Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Pelé, Jairzinho (ponta-de-lança no Botafogo e exclusivamente deslocado para a ponta-direita na Seleção), foi o comandante da campanha invicta do Tri - cuja base foi formada pelo polêmico proscrito João Saldanha, no ano anterior.

Agostino observa que o governo militar, por intermédio do serviço nacional de Informações (SNI), manteve guarda canina sobre os movimentos de Saldanha. Como se pode observar em um informa, datado de maio de 1975, o ex-técnico das 'feras' agora estava no alvo predileto de seus algozes de verde-oliva.

Ao serem lidas, hoje, as exegéticas observações do SNI não deixam de ser de dar frouxos de riso, de deliciar os mais insuspeitos amantes de teorias conspiratórias:

'Durante a realização de jogos no estádio Mário Filho, os comentários agressivos promovidos pelo comentarista de arbitragem da rádio Globo, sr. Mário Vianna, vêm provocando na massa de torcedores reações descontroladas (...) consta que essa provocação subliminar tem como criador e orientador o comentarista esportivo João Saldanha, ele mento ligado às esquerdas e defensor da ideologia comunista, o qual Saldanha utiliza-se do locutor Mário Vianna, elemento inculto, incapaz de compreender que está sendo utilizado para outros propósitos, mas que, com sua linguagem rude e grosseira, sem dúvida alcança, através dos rádios de pilhas dos torcedores, a fácil comunicação com o alvo desejado, o público presente'.




Fontes:
Gilberto Agostino, Aquela Corrente Prá Frente, Revista História, dezembro de 2004.
Nelson Rodrigues, À sombra das Chuteiras Imortais. Companhia das Letras, 1994.

posted by Marcelo Xavier 9:59 AM


Quinta-feira, Maio 04, 2006

 
SAUDADE À ITALIANA
Cinco vezes campeão, o Torino acabou num desastre aéreo, no auge do seu futebol


Mazzola

"Força, velho coração grená". A frase foi escrita em uma das faixas que a torcida do Torino, da Itália levava aos estádios anos depois da tragédia de Superga, a basílica com que o avião que levava a equipe colidiu, em maio de 1949. Retratava todo o lamento pela perda de seu time, cinco vezes campeão italiano. Mais que isso: consolava o país que, de uma só vez, vira desaparecer a base da sua Seleção.

Fundado em 1906, o Atlético Clube Torino, ou Toro, como diz a torcida, conquistara o seu primeiro scudetto, em 1928. E o único até surgir aquele grande time dos anos 40. O primeiro aviso aos campeões havia sido dado em 1942: um vice-campeonato, com 60 gols marcados. Diz-se até hoje que o título só não veio porque na final, contra o Roma, Mussolini, o campeão italiano, esteve presente, torcendo ostensivamente para o time da capital.

Mas nem o fascismo seria capaz de parar aquela equipe fantástica que, em 1947, cederia dez jogadores para a Itália derrotar a Hungria por 3X2. Só o goleiro Bacigalupo não jogou, mesmo assim porque estava machucado. Sentimenti IV, da Juventus, o substituiu, e era o único não torinense com a camisa da Azzurra naquele dia. Faziam companhia a Bacigalupo na defesa grenájogadores de fino trato, que contrariavam a tradição italiana de manter atletas mais ríspidos na zaga. Ballarin, Rigamonti e Martelli, eram três deles. O ponta-de-lança Loik e os pontas Menti e Ossola (às vezes substituído por Ferraris) faziam companhia a Gabetto e Mazzolla, uma dupla de ataque infernal. Juntos, eles marcaram mais de 150 gols nos Campeonatos Italianos d 1942 a 1949.

Mazzola era um caso à parte: bicampeão mundial em 1934 e 1938, verdadeiro ídolo nacional, levava o filho Alessandro, futuro jogador da Azzurra e da Inter de Milão, como mascote nos jogos do Torino.

Pentacampeão da Itália, ganhando os certames de 19434, 1946, 1947 e 1948 e 1949 (em 44 e 45 não houve disputa, por causa da II Grande Guerra), aquela gloriosa equipe esteve no Brasil no ano anterior ao acidente. Empatou com o São Paulo (2x2), Palmeiras (1x1) e venceu a Portuguesa (4x1). Só perdeu para o Corinthians que, após o acidente, lhe faria uma homenagem, jogando uma partida no Pacaembu com as camisas grená. Foi a única vez que o clube brasileiro abriu mão de seu uniforme tradicional.

Voltando de Lisboa, onde havia disputado um amistoso com o Benfica, o avião da Alitalia que trazia a delegação do Torino, matou todos os tripulantes. Faltavam quatro rodadas para o fim do Italiano e, a despeito de todos os demais participantes se ofereceram para dar o título ao clube de Turim, considerando a disputa encerrada considerando a disputa encerrada, juvenis e reservas entraram em campo para cumprir os compromissos restantes. Ganharam todos e receberam, em prantos, as faixas de campeão.

posted by Marcelo Xavier 2:00 AM


Sábado, Março 18, 2006

 
Memória
A PÁTRIA DE BOMBACHAS
Há meio século, a Seleção Gaúcha conquistava o Pan no México



Campeões: Luizinho, Bodinho, Larri, Ênio Andrade e Chinesinho

Num 18 de março, há exatos 50 anos, o futebol gaúcho teve uma de suas maiores vitórias. Neste dia, a Seleção Brasileira, formada por jogadores gaúchos, empatou em 2 a 2 com a Argentina, no Estádio Olímpico, no México, e conquistou o Pan-Americano de 1956. A vitória significou o salto definitivo do futebol sulino em direção à maturidade, além da enorme projeção nacional. A equipe titular foi treinada por Francisco Duarte Júnior, o Teté, então técnico do Internacional de Porto Alegre que, certamente foi o spalla da grande orquestra campeã.

Era fim de 1955 quando a notícia chegou: um selecionado gaúcho iria representar o escrete canarinho no 2o Campeonato Pan-Americano. Pouca gente acreditava que essa decisão da CBD (hoje CBF) teria algum futuro. A imprensa carioca dava frouxos de riso. Diziam eles que se um selecionado paulista que também representara o Brasil num certamente sul-americano um pouco antes havia naufragado, qual seria o galardão de um bando de gaúchos, senão a pior das derrotas? Do meio desse pessimismo, um homem, Aneron Corrêa de Oliveira, resolveu defender a decisão da Confederação: fiasco maior que o paulista não iria acontecer. E a guerra começou. Mário Morais, cronista paulistano, defendia aos quatro ventos que o fiasco era eminente:

- Temeridade! Temeridade! Incompetência da CBD! - diziam. Nunca uma desgraça fora tão cantada aos quatro ventos como essa.

No Sul, começavam as providências: alheio à estas polêmicas, o treinador da Seleção foi dado à Teté. Tido como treinador turrão (virtude que lhe fora herdada dos tempos de caserna) e folclórico (já que ele era famoso por lidar com toda a espécie de macumba), ele sabia como poucos tirar o máximo de seus atletas e trabalhava com um inusitado esquema tático calcado na movimentação dos jogadores de ala, num 4-2-4 que seria futuramente entronizado pelo Brasil na Copa da Suécia.

Porém, mais inusitada foi a expressa determinação de Teté: ao escalar o grupo para o Pan, ele decidiu prescindir de atletas do centro do país. Mesmo com toda a pressão, ele manteve convicto em seus interesses. Para o certame, ele convocou oito de seus jogadores no Inter, mais Raul Klein, do Floriano (hoje Novo Hamburgo) Aírton Pavilhão, Ênio Rodrigues, Sérgio Moacir, Ortunho e Juarez, do Grêmio, e Duarte, do Brasil de Pelotas. O ¿Marechal das Vitórias¿, como era conhecido, também foi o criador do terceiro goleiro na seleção. Ele solicitou à CBD a inscrição de um atleta a mais para a defesa, para a disputa. O terceiro homem dos arcos foi Valdir Morais, do extinto Renner de Porto Alegre.

O Brasil estreou num 1o de março. Enquanto todos os países eram representados por suas forças máximas, nossa Seleção era a pátria de bombachas. O Chile, que meses antes, havia goleado a Seleção Paulista com a camisa da CBD acabou perdendo por dois a um, gols de Luizinho e Raul.

Na época, o Peru era considerada uma das maiores forças sul-americanas, o México apresentava um futebol considerada razoável porém consistente, a Costa Rica entrou no Pan como a sensação da temporada mas, como sempre, a mais temida era a Argentina de Dominguez, Cuchiaroni, Sivoru, Macchio, Corbata e Ratín. ¿Foi uma exibição fantástica da Seleção Gaúcha, embora Teté fosse pressionado a levar jogadores de Rio e São Paulo, e ele não quis. Disse: ¿eu não vou levar¿. E levou só jogadores gaúchos¿, relembra Larri, que integrava a equipe campeã.

Florindo, beque colorado que participou da conquista no México, se recorda do time:

- No gol saiu jogando o Sérgio, depois entrou o Valdir. Na lateral direita foi o Oreco, que foi um jogador sensacional, eu como zagueiro central, como quarto-zagueiro foi o Ênio Rodrigues, lateral esquerdo Duarte, o meio de campo era formado pelo Ênio Andrade e Odorico. A linha de ataque foi formada por Luizinho, Larri, Bodinho, Ênio e na ponta-esquerda Raul e depois o Chinesinho¿. Além destes, o banco de reservas era formado por excelentes atletas, como o zagueiro Aírton e o centroavante Juarez, que jogou todas as partidas no segundo tempo, no lugar do Larri - relembra Florindo.

Mas o comandante daquele escrete era o próprio Teté que, com seu ímpeto e seu estilo de psicólogo do sobrenatural, conseguiu aliciar a todos com seu empirismo de encruzilhada e resolvia qualquer problema, até os que não tivessem muito a ver com o futebol. Se algum jogador aparecesse com alguma dor, ele sempre tinha uma mandinga para curá-lo. Um deles, Juarez, reclamava da canela esquerda. Então o técnico escalou Moura, o massagista, para tratá-lo. Arranjou um vidro com um líquido que, dizia ele, servia para evitar qualquer problema. E aplicava no local machucado, com arruda. Um dia, antes do jogo, o ¿precioso¿ líquido acabou:

- Seu Teté! Seu Teté! A água aquela acabou! - dizia Moura, em pânico, no intervalo do jogo. - O que eu eu faço?

- Não te preocupa - disse Teté, disfarçando. - Coloca água da pia mesmo, e diz que é a benzida, que vai dar o mesmo resultado.

E as vitórias se seguiam. O segundo jogo foi contra o Peru, com um ataque perigoso. Vitória de um a zero, com o lateral Oreco e Florindo frustrando as investidas andinas. Contra o México, o Brasil ganhou por dois a um, gols de Bodinho e Bravo contra. No dia 13, chegava a hora de enfrentar a sensação, Costa Rica. O selecionado gaúcho deu um baile e meteu sete na ¿sensação¿, com três gols de Larri e três de Chinesinho.

Aliás, Chinesinho foi um caso à parte. Foi convocado por Teté para a ponta-esquerda, que preferiu deixá-lo no banco, em favor de Raul Klein. O treinador alegava que o jogador colorado não mantinha o desempenho ideal. Na verdade, blefava. Foi quando sacou Klein, e foi enfático com o reserva: ¿o Raul tá jogando que é uma beleza, eu vou te colocar, mas se tu não jogar a partida da tua vida eu não te coloco mais¿. E lá foi o ponta colorado defender a sua titularidade. Jogou muito. No fim da partida, Teté disse, em tom de bravata: ¿o Raul tá jogando muito melhor que tu. Mas eu vou te dar mais uma chance porque tu é do Inter¿.

O jogo de fundo era México e Argentina. Se o México vencesse a Argentina, o Brasil já seria campeão, independente do último jogo, porque nós havíamos vencido as quatro partidas, e a Argentina havia empatado uma, e se eles perdessem, ficariam com apenas três pontos. Sabendo disso, Teté fez de tudo para que o México liquidasse os argentinos. Aproveitando a amizade com o treinador do México, o comandante brasileiro chegou perto do homem e confidenciou:

- A gente é tudo vizinho deles, o Rio Grande é fronteira com a Argentina - argumentava. - O negócio é o seguinte: eles são covardes, eles não agüentam, tem que dar pau neles, que eles se entregam, vocês ganham fácil. Mas tem que dar duro, dar pau neles!

E não deu outra: o jogo foi um verdadeiro entrudo. Tanto que o número de expulsões do lado ¿fronteiriço¿ ao Brasil acabou beneficiando o escrete. O treinador mandou seus atletas baterem e os dois times terminaram o jogo quase sem plantel...

De repente, veio uma confusão do lado do campo. Gama Moucher, árbitro brasileiro, começou a expulsar gente dos dois times, e dado momento, a Argentina estava com sete jogadores e o México com nove. Mesmo em vantagem, os mexicanos puxaram o carro. Indignado com tamanha indolência, Teté foi reclamar do técnico dos anfitriões:

- Tem que ganhar esse jogo! Tem que ganhar, e não empatar!

E o homem nem bolacha para o brasileiro Foi quando Teté, mesmo sem voz (ele sofria de asma), foi para a lateral do campo, e ele começou a berrar em castelhano aos atletas mexicanos:

- Arriba, pessoal! Arriba! Arranca! Atire no golo!

Não contente, mandou Moura mandar os atacantes do México matarem o jogo. A cena era surreal: os jogadores mexicanos, ao longe, na ponta do campo, gesticulando furiosamente em direção ao gol:

- Arriba! Arriba!

Moura, aliás, como braço-esquerdo de Teté, foi o protagonista do episódio mais antológico e pitoresco de todo o Pan. O Brasil jogava contra o Peru que, à época, tinha um ataque fenomenal ¿ Moschera, Félix Castillo, Draco, era um timaço que disputava cada jogada palmo a palmo do campo. Depois do gol de Larri, aos vinte do primeiro tempo, a pressão peruana se tornava sufocante. Castillo, driblador e veloz, batia Duarte com facilidade a cada ataque. Qualquer descuido do lateral brasileiro poderia ser fatal.

Em determinado lance, pelo fundo do campo, Odorico acabou lesionado, e ficou estirado na linha de fundo, sendo atendido por Moura, com sua maleta de madeira. Foi quando tudo aconteceu: enquanto verificava as condições do meio-campista colorado, o massagista sentiu a inexorável aproximação de Félix, que dribla Duarte, depois Ênio Rodrigues e corre sozinho pela linha de fundo com a bola, pronto para fuzilar Sérgio Moacir. Moura não pensa duas vezes, e atirando a pesada maleta aos pés do ponta peruano, fazendo o atleta cair esterepitosamente no gramado.

- Foi uma coisa, queriam prender o Moura - lembra Larri. - Foi uma coisa horrível, os jogadores do Peru queriam matar ele, e nós tivemos que entrar no bolo para afastar. Foi uma coisa terrível.

Já Florindo entende que, mesmo que a atitude do massagista foi mais do que fundamental:

- Foi um bafafá, expulsaram o Moura, e ele, naquele instante, ele teve uma coisa que eu posso dizer o seguinte: se não fosse ele, o jogador da Argentina iria fazer o gol.

Na final, contra a temida Argentina, Chinesinho fez 1 a 0, e Yaudica empatou, no primeiro tempo. Aos 13 minutos do segundo, de falta, Ênio Andrade fez 2 a 1. Cinco minutos antes do fim, Sívori empatou. Como o resultado garantia o título, os gaúchos só tocaram a bola até a festa. O time campeão teve Valdir; Florindo e Figueiró (Duarte); Odorico, Oreco e Ênio Rodrigues; Luisinho, Bodinho, Larry, Ênio Andrade e Chinesinho. Na volta, Porto Alegre parou para receber os campeões. Simbolicamente ou não, a epopéia gaúcha com a camisa amarela da Seleção, além de calar os céticos, de certa forma abriu caminho para que o Brasil amealhasse o seu primeiro título mundial, dois anos depois.

posted by Marcelo Xavier 5:44 PM


Terça-feira, Janeiro 10, 2006

 
Times
RAPSÓDIA HÚNGARA
Ou quando o Honved assombrou o mundo
com seu futebol espartano




Puskas

Nelson Rodrigues dizia que não há nada mais exasperante do que o gênio do futebol: ele tem uma categoria que humilha e ofende o adversário. E o que dizer então do Honved, equipe que contava com onze gênios? Na primeira metade da década de 50, o time do Exército Vermelho da Hungria foi imbatível. Era uma força da natureza: ele ventava, chovia, trovejava. Cara partida sua era uma rapsódia de futebol em puro estado de graça. Contava com alguns dos maiores craques de todos os tempos. Bozic, Czibor, Kocsis e, é claro, Ferenc Puskas, o maior atleta de seu tempo.

O time dos militares do Honved (ou, os 'defensores da pátria') como um grande escrete surgiu para o mundo em 1949, quando o liliputiano Kispet (time de um bairro de Budapeste) chegou à o primeira divisão com Puskas como o seu spalla atraiu as atenções de Gustav Sebes, então o vice-diretor do Comitê de Esportes húngaro. O Major Galopante (como ficou conhecido, já que era o seu posto na caserna) contava dezenove anos, idade de servir ao Exército. Junto com Bozic, foi prontamente convocado. Aqui começava o sonho do espartano futebol húngaro, que assombraria o mundo, cinco anos depois.

Montadas as correias e rolamentos que faltavam para construir a máquina de fazer gols, o Honved passou a acumular títulos nacionais, como os de 1950, 1952, 1954 e 1955, ano em que o clube chegou ao limite de permanecer mais de trinta jogos invicto, façanha que nem o Brasil foi capaz de realizar. Do escrete vermelho, pelo menos sete atletas foram cedidos para a seleção magiar, e que fundiu o clube com a própria história do futebol húngaro, ao conquistarem o título olímpico de Helsinque em 1952 e o vice-campeonato mundial na suíça, em 1954, quando foram surpreendidos pela Alemanha, cujo gol do título só não foi tão contestado quanto deveria (o gol da vitória alemã foi de impedimento) porque eles estavam fartos de ganhar. Puskas, por exemplo, era um artilheiro incansável: o Major chegou à marca de mais de um gol por jogo - oitenta e cinco gols em oitenta e quatro partidas - um verdadeiro fenômeno.

E Ferenc era mesmo fenomenal. Físico atarracado, ligeiramente fora de forma, compensava a sua compleição física adversa num futebol mágico, cerebral. Foi o carrasco da gloriosa Seleção Inglesa. Em 1953, os magiares surpreenderam os jogadores britânicos no alçapão de Wembley: levaram um sonoro 6x3 do escrete húngaro. Quando o time de sua Majestade tentou devolver a goleada, em Budapeste, tomou outra sova. 7x1.

Se não havia nenhum problema dentro das quatro linhas, fora delas, a situação era outra. A mesma politicagem que criou o Honved cuidou de desfazê-lo. Quando os 'defensores' jogavam contra o Atlético de Bilbao, pela Copa dos Campeões, a Europa foi surpreendida pela fato de que a Hungria havia sido invadida pelas tropas do Pacto de Varsóvia. A tentativa frustrada de se livrar do jugo soviético obriga Moscou a ocupar o país magiar. Liderados por Puskas, o time resolveu não retornar à terra natal.

Mesmo vetados pela Fifa, o clube passou a excursionar pelo mundo, a fim de realizar amistosos, chegando a disputar alguns jogos contra selecionados de times cariocas. Contra o Flamengo, perderam de goleada: 6x2. Sucumbiram ao Botafogo, quando o Glorioso abateu o exército rubro por 4x2. Era o fim. Cansados da burocracia da Federação Húngara de Futebol, proibidos pela Fifa de disputar mais partidas, os atletas optaram pela diáspora. Do grupo, oito retornaram à Budapeste e os restantes se espalharam pela Europa Ocidental. Puskas foi para o Real Madrid, porém passou por uma suspensão de dois anos (imposta pela Federação Internacional por ter se desvinculado do Honved sem autorização). No clube espanhol, mesmo com 31 anos, o Major Galopante ainda viveria anos de ouro no Real e auxiliaria o time do Santiago Bernabeu à conquista do Penta europeu.

posted by Marcelo Xavier 5:42 PM


Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

 
Memória
A PRIMEIRA ESTRELA
No dia 14 de dezembro de 75, o Inter tornou-se campeão brasileiro
ao vencer o Cruzeiro com o gol iluminado de Figueroa



A bênção: Figueroa sobe mais alto e faz o fol da vitória



Domingo, 14 de dezembro de 1975. O Internacional comandado por Rubens Minelli enfrentava um dos maiores times do Cruzeiro de Minas Gerais, válido pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Do alto das nuvens que nublavam os céus de Porto Alegre, os deuses do futebol assistiam lá embaixo, no gramado do Beira-Rio, a uma guerra cruenta: de um lado, Falcão, Carpegianni, Valdomiro, Flávio e Lula; do outro, Dirceu Lopes, Raul, Nelinho, Piazza e Joaozinho. Eis que, aos onze minutos do segundo tempo, um raio de sol furou o bolo de nuvens e esguichou sua luz sob a fronte de Figueroa no momento em que, em câmera lenta, ele saltava suavemente para encontrar com a bola oriunda de uma cobrança de falta, que caia na área pequena enquanto o zagueiro colorado subia mais alto do que os beques mineiros. Os mais de 82 mil torcedores alvirrubros assistiram a um milagre: o Inter era campeão. Mais do que isso, era a primeira vez que eu time do Sul conquistava o Brasil. Aquela decisão completa hoje 30 anos.

Diferente de como ocorre hoje, aquele time foi concebido muitos anos antes. Para muitos, tudo começou quando o time juvenil de 1969 foi guindado à equipe principal, ainda dirigida pelo polêmico Daltro Menezes. Entre eles, destacavam-se os meias Escurinho, Cláudio Duarte, vindo de São Jerônimo, e Paulo César Carpegianni. Meio-campista de origem, Duarte virou lateral já em 1970 por sugestão do olheiro Abílio dos Reis, porque Paulo César seria sempre o titular da posição. Em 1971, chegava o técnico Dino Sani e Figueroa, egresso do Peñarol que, mesmo não querendo vendê-lo, acabou cedendo o atleta por conta de dívidas que o clube uruguaio havia contraído. Na mesma época, Hermínio aparecia para opção na quarta-zaga. Vacaria vinha do 14 de Julho de Passo Fundo. Antes, de Criciúma o Inter em 1968 trazia Valdomiro, para jogar toda a década seguinte na ponta-direita. Em 1973, Falcão ganhava espaço na maia-cancha por intermédio de Sani. Em 74, vieram Manga no lugar de Schneider e Lula, para a ponta-esquerda. No fim do ano, o paulista Rubens Minelli era o novo técnico, trazido pelo folclórico e eficiente Frederico Ballvé, vice de futebol de Eraldo Hermann.

Então chegou 1975. No começo do ano, o Internacional iria fazer uma excursão à Europa, no começo do ano. O volante que iria compor o grupo era Vitor Hugo (depois foi para o Grêmio). Pouco antes da viagem, um motorista bêbado o atropelou, na frente do Beira-Rio. Na hora de fazer a relação de atletas, não havia ninguém para ocupar a vaga de Vitor Hugo. De repente, o veterano goleiro Schneider chegou para Minelli e falou de um cara que havia estourado a idade nos juvenis. Cutucou-o e apontou para um sujeito mais ao longe:

- Chefe, leva aquele negrão ali.

- Quem? - retrucou o treinador.

- Aquele negrão ali. Ele joga em qualquer função de defesa.

O 'negrão' era Caçapava.

E ele foi coma delegação. O time jogou quinze partidas, pegou neve, Inverno abaixo de zero, campo de terra, lama. E Caçapava era o coringa: só não jogou de goleiro. Quando o clube retornou, o volante entrava na meia no lugar de Escurinho, fechando com Paulo César e Falcão. Escurnho, que era considerado por Minelli um jogador menos esforçado, ficava no banco para entrar no segundo tempo, e jogar pela sua grande característica: o cabeceio.

Faltava um bom centroavante. Como Claudiomiro estava acima do peso e confundia o apetite da bola pelo de comida, foi preciso arranjar outro. Então Ballvé se lembrou de Flávio Bicudo, que estava no Porto e resolveu trazer o ex-craque colorado de 1961. Arrumou o dinheiro e mandou o diretor de futebol, o jovem Pérsio França, para negociar com o clube português, em plena convulsão da Revolução dos Cravos, que derrubava a ditadura salazarista na terra de Camões. Antes, anunciou à Minelli:

- Rubens, eu decidi que vou trazer o Flávio.

- Que Flávio?

- O Minuano.

- Porra, mas ele ainda joga? - espantou-se o treinador.

Jogava. Tanto que, no primeiro jogo, um Gre-Nal, dia 13 de julho, marcou o gol da vitória colorada, aos quatro minutos do primeiro tempo...



De roldão, o vice do Inter também trouxe Lula. Teve resistência de Minelli. Um estafeta assoprou no ouvido de Ballvê:

- Se tu trazer o Lula, o Minelli se demite.

- Não interessa - gozou o dirigente. - O Rubens não joga. Deixa de frescura. Vão dar sopa pro azar.


Apesar de excelente ponta, Lula era tido como problemático. Certo dia, irritou tanto o 'chefe' que o 'raposa do deserto' pediu demissão. Além do mais, se achava desgastado com rumores vindo da imprensa a respeito de declarações distorcidas após um jogo do Brasileiro. Apavorado, um assessor ligou para Ballvé, que sempre acordava tarde,e foi solenemente acordado no terceiro sono:

- Seu Ballvê, o Minelli se demitiu!

Lá foi o vice colorado, às pressas ao estádio. Vestiu seu uniforme de explorador africano e rumou para o Beira-Rio Quando viu o treinador, ouviu o pedido irrevogável:

- Estou demissionário. O Lula me enche todo dia, todo dia é uma tragédia, quer bicho, nunca chega na hora, assim não dá para continuar!

O dirigente colorado não se conteve, e sem perder o bom humor:

- Minelli, vai prá puta que te pariu, pede demissão lá no pôr do sol! Deixa que eu resolvo esta merda com eles.

Reuniu o grupo de atletas. Todos cabisbaixos. Ballvé conhecia o grupo que tinha. Olhava-os de alto a baixo, enquanto andava de um lado a outro, com as mãos para trás, como um sargentão. Berrava uma metralhadora de palavrões, como sempre:

- Vocês viram o que fizeram??? Vocês viram o que fizeram??? O Minelli pediu demissão. Quem aqui tem alguma coisa contra ele?

Lula ergueu o braço:

- Eu tenho.

- Tu não, porra! - gritou Ballvé. - Tu briga até com a tua mãe.

Todos caíram na gargalhada e a célula de crise acabou ali. Ciente do temperamento do seu camisa 11, Ballvé proferiu uma frase que se tornou lapidar:

- O Lula infernizava a gente a semana inteira, mas no jogo ele infernizava o time adversário.

Outro craque ciclotímico mas não menos folclórico era Manga. Se fechava o gol debaixo dos arcos, era um gambeteador nato: adorava uma roleta. Vivia pedindo vales para os dirigentes ou para Valdomiro, que era o tesoureiro do grupo de jogadores, para apostar nos cassinos de Montevidéu. Depois de cada jogo, ele tomava banho, vestia a beca e viajava para a capital uruguaia. Enquanto todos economizavam o dízimo da caixinha, Manga estava sempre devendo. No vestiário, ele chegava para Valdomiro, e, do seu jeito, falou:

- Nêne, Nêne, tiene um valezinho para Manguinha? - suplicava, com o sotaque entre nortista e portunhol.

- Então me traz a assinatura do diretor - respondia o disciplinado ponta.

Vale no bolso, no posto de gasolina ao lado do estádio, Manga negociava o bicho, arrecadava o dinheiro adiantado, botava as passagens no bolso do paletó e partia para o Aeroporto Salgado Filho...

Manga também gostava de um carteado, e o resto do grupo topava. Certa vez, em plena concentração, estavam ele, Lula, Carpegianni no quarto de Valdomiro. Ao flagrá-los, Vacaria, pé ante pé, de pura molecagem, foi entregar todos à Minelli:

- Chefe...

- O quê?

- Eles estão jogando baralho...

Lá foi o 'raposa'. Bateu na porta do quarto. Silêncio total:

- Quem é? - perguntou Valdomiro.

- Eu, Minelli!

Instalou-se o pavor. Pisando em ovos para não serem pegos, foi um para cada lado. Paulo César se escondeu debaixo de uma cama, Lula escafedeu-se debaixo da outra, e Manga, ato reflexo, entrou no roupeiro.

Minelli entrou. Olhou para os lados. Abriu o armário:

- Muito bonito, né seu Manga? - bradou o técnico, mãos na cintura.

- Jefe, me perdoa, jefe! - suplicava o goleiro, do alto dos seus quarenta e poucos anos, com o sorriso amarelo, enquanto Vacaria se rachava de rir.

Se pareciam pândegos fora de campo, dentro, todos se tornavam líderes porque gostavam de ganhar. Cláudio Duarte entende que essa filosofia foi criada no dia-a-dia, no calor das reuniões e através das lideranças que impunham isso. 'Quando o time não ganhava, fechavam a porta do vestiário e a cobrança era dura', lembra o lateral. 'Diziam que se tu perdeu uma recupera na outra, mas não: a que tu perde, nunca mais recupera', diz. Ele revela que, nesses momentos, o grupo se impunha muito, e havia uma certa compreensão dos dirigentes. 'A gente se impunha no trabalho, no condicionamento', explica Duarte. 'Essa mentalidade era imposta no grupo, era um time que gostava de ganhar'.

Figueroa era o primeiro líder, o capitão. Mas havia as outras: 'Cláudio era o que gritava, ele organizava muito¿, relembra Falcão.'O Figueroa era a liderança mais fleumática. O Paulo César tinha uma liderança técnica: dava a bola para ele, depois só tirando com um fuzil', analisa. Para o ex-volante, outro atleta com esse perfil era Valdomiro: 'era liderança técnica', relembra. 'Todos sabiam que era só passar para ele que ele alçava a bola para a área', diz. 'O time tinha tudo, tinha cobrador de falta'.

Com essa mentalidade, e com o trabalho espartano do preparador Gilberto Tim, o Internacional flanou no Campeonato de 1975. Depois de ser surpreendido no Recife pelo santa Cruz, o time descontou a derrota no Sport no Beira-Rio (3x1). No Morumbi, segurou um empate em zero com o São Paulo, venceu o Grêmio em casa (1x0) e o Náutico nos Aflitos. Em Porto Alegre empatou com o Flamengo (1x1) e goleou a Portuguesa (3x1). Então veio o jogo mais complicado: a semifinal contra o Fluminense, em pleno Maracanã. Era a inexpugnável Máquina Tricolor de Rivelino e Paulo César Caju, um time tão forte que a imprensa carioca já soltava foguetes, entronizando a equipe pó-de-arroz com o a verdadeira campeã de 1975.

Quando a delegação colorada chegou à Cidade Maravilhosa, o treinador do Flu, Didi, falava para os setoristas que era jogo jogado e que estava mais interessado com a final. Minelli ouviu tudo e levou a declaração do Folha Seca para dentro do vestiário. No dia seguinte, ele jogou o Jornal dos Sports na cara de todos.

- Leiam isso - ordenou.

Na partida, o Inter cresceu em campo: Rivelino não pôde jogar, ante a marcação canina de Caçapava, que o anulou, deixando Gil morrer de inanição na pequena área. Resultado, Inter 2x0 em pleno Mário Filho com Nelson Rodrigues e 180 mil torcedores chorando lágrimas de esguicho. Colorado finalista.


Ballvé (segundo da dir à esq.) Tim e Rubens Minelli (fundo)

Veio a final. Com a vitória, o Inter velava a decisão para casa. Minelli já anotava duas ausências, Cláudio e Vacaria. Optou por Hermínio e Valdir. Eis que, em pleno Sábado, durante coletivo, o pior dos sinistros: Manga havia fraturado um dedo da mão. Ballvé apareceu no estádio soltando fogo pelas ventas:

- Nenhum time faz treino sábado, porra! - berrava. - Não precisa! O que os caras vão aprender sábado que não aprenderam na sexta? Joguem xadrez no sábado, porra!

Foi ver a situação de Manga. No departamento médico, o goleiro viu o dirigente, e disse:


- Acho que não vai dar prá amanhã - fala, com voz mansa. - Manguinha tá problema

Ballvé deu um vale para o fenômeno. Depois, mandou que colocassem uma tala. De noite, o arqueiro viu o dirigente:

- Agora Manguinha já tá melhorzinho...

Decisão difícil como todas as decisões. Minelli e Tim, ligeiramente tensos. Como eles sabiam que o Cruzeiro iria tentar matar o jogo no começo, o técnico recuou Caçapava, e previa um jogo longo, talvez um empate com prorrogação. Minutos depois, Joãozinho entrou grande área adentro, cara a cara com Manga, obrigou o goleiro a jogar-se aos pés do atacante. O choque fez o fenômeno soltar um urro de dor. Tim mandou Schineider aquecer, mas Manguita gesticulou que iria tentar permanecer no gol (na verdade, há quem diga que era um ardil tanto para ganhar tempo em campo quando fazer jogo de cena para sustentar o 'migué' em Ballvé, já que ele tinha o dedo fraturado)

Com o correr do relógio, Caçapava soltou-se mais à frente, junto com Falcão e Paulo César. O treinador colorado sabia que o jogo seria quase sem alternativas e o placar seria pequeno. Quem levasse o primeiro gol, fatalmente perderia a partida. O segundo tempo terminou no zero.

A tradição diz que falta inexistente marcada perto do gol é sempre gol. E a tradição se fez aos onze minutos. Dulcídio Vanderlei Boschilia marcou falta de Piazza em Valdomiro, cuja cobrança só não foi menos surpreendente do que o esguicho de luz em Figueroa. O gol deixou o jogo cada vez mais emocionante, ainda mais quando Boschilia apitava à favor do Cruzeiro no campo do Inter. De todas as formas possíveis, o franco-atirador do clube mineiro tentava desafiar as leis da Física e a capacidade do atribulado Manga, que também conseguia desafiar as leias da Física, ziguezagueando no ar para conseguir desviar a trajetória das faltas.

Aos 46, outra falta em Nelinho. Ele iria cobrar. O vice Ballvé se levantou automaticamente do banco:

- Porra! Falta do Nelinho é gol! Se empata, nós estamos fudidos!

E invadiu o campo. Minelli veio atrás. O estádio inteiro implorava pelo fim do jogo. Num derradeiro contra-ataque, Lula ainda perdeu a chance de ampliar na cara do gol, chutando a bola inexplicavelmente para o alto.

E, quando o árbitro apitou, o Internacional e o Rio Grande entravam no mapa do futebol nacional pela primeira vez, quando incrustou no peito a sua primeira estrela.

Ficha do jogo:

INTER
( 1 )
Manga, Valdir, Figueroa,
Hermínio, Chico Fraga, Caçapava,
Falcão, Paulo César, Valdomiro (Jair),
Flávio, Lula
Técnico: Rubens Minelli

CRUZEIRO
( 0 )
Raul, Nelinho, Morais,
Darcy Menezes, Isidoro, Piazza,
Eduardo (Souza), Zé Carlos, Roberto Batata (Eli).
Palhinha, Joãozinho
Técnico: Zezé Moreira
LOCAL: Estádio Beira-Rio



posted by Marcelo Xavier 10:38 PM


Sábado, Novembro 12, 2005

 
Entrevista
O "BUGRE XUCRO"


Alcindo no Grêmio, em 77

Descoberto no Inter em fins dos anos 50, Alcindo Martha de Freitas se tornaria o maior um dos maiores centroavantes da história do Grêmio No tricolor, ele fez 636 gols, se tornando o maior goleador dos últimos quarenta anos, desde a inauguração do Estádio Olímpico. O Bugre, como era chamado por seu ímpeto dentro das quatro linhas, marcou treze gols em Grenais, marca hoje quase impossível de ser alcançada. Após saída tumultuada do colorado, ele só retornaria aos Eucaliptos para saciar a sua sede de vingança ao time que o preteriu. Depois de ser emprestado ao São Paulo de Rio Grande, Alcindo jogou no Grêmio de 1964 a 1969, conquistando cinco regionais. Entre 1971 e 73, jogou no Santos de Pelé, Rildo, Clodoaldo e Oberdan. De 1973, ano em que se sagrou campeão paulista pelo Peixe, e 76, esteve no futebol mexicano, a convite do ex-capitão do Bi, Mauro Ramos. Jogaria ainda no time que o projetou em 1977, quando foi novamente Campeão Gaúcho, encerrando a carreira no Francana, em 1978. Alcindo também jogou na Seleção na malfadada participação da Copa do Mundo de 1966.

Na entrevista, ele fala do começo no Inter, a consagração no Grêmio, as histórias rocambolescas da participação brasileira na Inglaterra, quando o Brasil foi eliminado nas oitavas-de-final e a sua ida para o futebol paulista, nos anos 70.


Como foi o começo da sua carreira, Alcindo?

Foi no infantil do Aimoré. Eu sempre fui centroavante por influência do meu irmão, Alfeu. Depois eu fui ser juvenil no Lansul, que um dia fez um amistoso com os aspirantes do Inter. Na época, o Inter tinha o Flávio Bicudo, o Dagoberto, Ceconi, Guaporé, era um time fabuloso. Nós perdemos de quatro a três, e eu fiz os três. Depois do jogo, o Abílio dos reis foi falar comigo, e fez o convite. Só que, chegando lá, tinha o Flávio, o Sadi Schwerz, que era centroavante, o Valdir Fraga, e eu tinha quatro na minha posição na minha frente, e quem chega de fora, sente dificuldade. Mas como o Abílio me indicou, eu senti que eu tinha condições de lutar. E acabei fazendo dupla com o Flávio, eu tinha uns quinze anos. Isso foi 1957, 1958. Eu fui goleador pelo Inter num Gre-Nal no Olímpico, nós ganhamos com cinco a um, com quatro gols meus.

E o Grêmio? Como foi a ida para o Grêmio?

Antes, o juvenil jogava no Sábado, e os aspirantes faziam a preliminar. O Gre-Nal foi no Olímpico, e os profissionais do Grêmio estavam assistindo, o Fernando Kroeff, o seu [Rudy Armin, ex-presidente] Petry. Mas, antes das férias, eu falei com o seu Abílio: Tô com problema, eu tenho que pegar dois ônibus, um de Sapucaia do Sul até o Mercado, e o Linha 77 até o estádio. Eu não queria aumento: queria apenas ajuda de custo, porque eu estava com dificuldades. Na outra semana, o Abílio tava treinando, e antes ele falou com o presidente Fagundes de Mello. De repente, entrou no campo aquele senhor de gravata. Quando ele falou com o Abílio, ele apontou para o meu lado, e eu pensei que nunca que ia ser comigo, nunca. E ele veio. Eu era tão desconhecido que ele teve que perguntar: "quem é esse tal de Alcindo?". Isso que, uma semana antes, eu tinha feito quatro gols. Ele veio, era bem baixinho o homem. E, de repente, ele começou a crescer diante de mim. Eu respondi: "acho que o Alcindo sou eu". Ele respondeu: "Ah, é tu? Mas vem cá, o que tu está pensando, guri? Tu tem dois irmãos jogando no time de cima. Quem dá aumento para eles sou eu. Eu que digo quem vai ganhar, o quanto vai ganhar. Quem é tu, um juvenil, que vai falar que tá querendo aumento?".

Eu fiquei surpreso, porque ele era o manda-chuva do clube. Eu falei com o Abílio, e ele deu aquela bola nas costas, o homem abaixou as calças, me mijou bastante, e eu ali, com quatorze, quieto. "Tá vendo aquele portão ali?", ele apontou para a entrada dos Eucaliptos. Ele viu que eu tava de cabeça baixa, mas olhando. "Pois tu pode ir embora!". E eu achei que o homem ia me mandar sair. Mas, depois que ele se foi, o Abílio, recomeçou o treino. Mas aquilo me deu uma coisa ruim. Ele me perguntou: "Não vai jogar?". Eu respondi: "Vou embora". "Tá brincando?", ele perguntou. "O que o homem te disse?". "Vai lá e pergunta para ele", eu respondi, chorando. Muitos têm uma história parecida para contar, e acho que, se não tivesse sorte, eu não estaria aqui contando isso...

Como o Grêmio soube?

Pensei em voltar pro Aimoré ou o Lansul. Mas, dias depois, o Camelinho, torcedor do Grêmio, perguntou em casa por um guri que jogava no Inter. Porque eu tinha um irmão mais velho, o Alcino, que estava no Grêmio. Ele disse que o dr. Kroeff tinha mandado ele lá para me buscar. Só que o Grêmio me deu o dobro sem eu pedir. Lá eu achei minha casa, e fui muito bem recebido. Foi um casamento que deu certo. Eu fiquei no juvenil, mas jogava nos aspirantes, contra os profissionais. Eu fiquei assim até ser emprestado no São Paulo de Rio Grande, onde eu fiz um ano de estágio. Em 1962 eu estava liberado, de volta, mas ainda tinha o Juarez, e depois o Paulo Lumumba. Tive sorte lá, e voltei para o Grêmio, já titular. O ataque era Babá, Joãozinho, eu e o Volmir. Quando nós engrenávamos, era difícil. Inclusive, o jogo da Rússia. Sempre fui um jogador aplicado na preparação física, então nunca fui preguiçoso para esse tipo de coisa, eu fazia até mais porque achava que, quando precisasse dentro de campo, eu ia poder realizar.

Tu chegaste a jogar pelo Grêmio contra os teus irmãos?

Com o Kim, eu só joguei contra, com o Rio Grande. Depois que eu saí, ele ficou. Em 1964, 65, eu joguei contra o Rio Grande. E em 1964, eu joguei junto com o Alfeu, que foi contratado pelo Grêmio. Nós jogamos juntos, até que ele foi para a Argentina, jogar no Newell's Old Boys.


Mas a dupla mesmo foi com o João Severiano?

Até porque o Alfeu eu aprendi muito. Mas a dupla era com o João porque ele tinha outra caracter, nós éramos meio parecidos de frente. As poucas coisas que eu tenho eu devo à ele.

Tu foste direto para a Seleção Brasileira principal ou teve participação em categorias de base?

Fui direto. Tive sorte, porque aquele jogo contra a Rússia, em 1965, não era costume da CBD, e era difícil uma equipe como aquele se apresentar aqui. Foi comentada essa vinda deles, e daí veio a comissão, o Vicente Feola, e eu fiz dois gols, e eu assinei o passaporte pelo menos para ir para o Rio de Janeiro.


Como tu e o Tostão se entenderam dentro de campo?

Eu dei sorte até porque o Tostão tinha um estilo de jogo parecido com o do João Severiano. Não era ambicioso, largava a bola de primeira, gostava de vir para a tabela. Com o Tostão não houve aquele negócio de tocar e o fulano não devolver a bola, aquela panela que sempre há entre os craques. Como eu e ele estávamos procurando um lugar ao sol, então eu agradeço a ele e ele a mim por termos nos ajudado. Porque ali não houve maldade nenhuma. O Flávio Bicudo foi convidado, fechou muito. O companheiro dele queria que fosse um outro de outro time (o Silva, do Flamengo). O Vicente gostava de duplas. O Pelé e Servílio, Flávio e Silva). Eu e o Tostão.

O que aconteceu em 1966 quando foi formado o grupo? Vocês fizeram uma excursão na Europa e tiveram que cortar jogadores lá?

Tu vê, não era prá mim ter ido, porque eu estava no último jogo, e eu tinha uma lesão muito grave. E aí o doutor David Gusmão não pôde testemunhar, mas ele disse parta mim: "Tu tem uma fissura no pé". Só que não era uma: eram duas. Mas como a minha vontade e a do Grêmio eram grandes para me projetar, porque eu fiz muita propaganda para ir em todos os países, levava panfletos do Grêmio, e eles nem sabiam quem era o Grêmio. Eu fui bem lesionado. O último jogo foi em Niterói, eu fiz três gols, e no final do treino, eu machuquei o tornozelo. E imediatamente vim para Porto Alegre, e fiquei com três meses de gesso. Três meses. E eu tirei o gesso, e viram a fissura na radiografia. Engessaram de novo, e eu fui, o médico da CBD tirou o gesso, a gente fez a excursão, eu não joguei nenhum jogo, e o Feola me levou mesmo sem condições. No primeiro jogo contra a Bulgária, eu fui titular na estréia (Brasil 2 Bulgária 0), e perdemos para a Hungria...

O Oto Glória mandou baterem no Pelé. E os portugueses liquidaram com ele...

Eu nem gosto dele falar, mas o Pelé também não tinha condições. Ele tinha um distensão profunda na virilha. Do primeiro jogo eu fui infiltrado, o Pelé também foi. O Garrincha também. O segundo jogo contra a Hungria, ele sentiu muito, que ele tinha uma distensão violente. Ele não jogou, e eu joguei. Entrou o Tostão no lugar do Pelé. E no último jogo, a fissura virou fratura. O campo de Wembley era muito pesado, e quebrou o meu pé. Saíram eu e o Gilmar, entraram o Silva e o Manga. Perdemos de 3 a 1. Essa história é eu posso contar porque sou testemunha. Imagina se ele tivesse condições. Se todo mundo não conseguia chegar perto do Pelé. Porque eles iriam chegar em 1966? E bateram bem. É porque ele estava mal fisicamente, como eu e toda a Seleção. Por isso que bateram nele, porque ele não tinha condições. Se ele tivesse bem, meu Deus, teriam passado por cima. O preparador era o Júlio Hermanny era o preparador, e ele era o professor de judô do Fluminense. O Nascimento, era o coordenador, ele trouxe o Hermanny. Esse que foi o preparador físico da Copa de 1966, então a coisa não podia dar certo. E a CBD não se preocupou com a renovação da Seleção, e nós fomos com a Seleção de 58: Garrincha, Bellini, Zito. Nós fomos com uma equipe velha e nós ganhamos em 1970 porque houve uma renovação.

Depois da Copa, tu ganhaste um monte de títulos pelo Grêmio, até 1969? E como foi a tua ida para o Santos? Foste trocado pelo Mazinho?

Houve um lance comigo, comigo e o Jair. Houve um dois toques, ele estava no gol. O Sérgio Chorão era o treinador. Quando eu levantei a bola, disse pro Jair: vem que eu vou te dar um balãozinho. Quando eu baixei a cabeça, ele pegou a bola no ar e caiu em cima do meu joelho, e houve uma ruptura dos ligamentos do joelho, e eu tive que parar um ano e meio. Nesse meio tempo, assumiu o Oto Glória no Grêmio. Fui para a Escola de Educação Física da Urca. Estava lá o Jairzinho, o Carlos Alberto Torres, o Paulo Henrique, e nessa época, havia um campeonato dos quartéis no Rio. Como a gente estava no quartel, a gente estava defendendo a Urca. E jogamos contra o time do Brito, que era da Ilha do Governador, contra vários quartéis. Como eu já estava bem, jogávamos na frente eu, o Carlos Alberto, o Jair e o Paulo Henrique. Nós começamos a ganhar de todo mundo, nos domingos na Ilha. E ia o diretor. E eu fui o goleador lá. No jogo final, fiz um monte de gols, e tava lá o diretor do Fluminense, que me disse: "mas Alcindo, tu tá bem, tá fazendo gol". Em Porto Alegre diziam que você estava bichado. Eu disse que estava bem e estava voltando. Ele perguntou: "tu quer vir para cá?". Eu disse que tinha que falar com o Grêmio. Uma semana antes, o Santos veio jogar com o Grêmio no Olímpico. E o Mazinho fez dois gols. E ele não tava bem, mas o Mazinho fez os gols. O Carlos Alberto voltou do Santos para o Botafogo, eu ia voltar para o Grêmio, e o Paulo para o Flamengo. E o Carlos Alberto falou com os diretores e com o Pelé. Só que eu já tinha a proposta do Fluminense, e eu gostaria de jogar no Rio. Mas o Pelé teve uma influência grande. Fui para o Santos e não me arrependo disso.


Tu te lembra do teu time?

Cejas, Carlos Alberto, Oberdan, Ramos Delgado e Rildo; Clodoaldo, Brecha e Afonsinho; Manoel Maria, eu, Pelé e Edu. Eu saí uma semana antes, ficou Santos e Portuguesa, e o Armando Marques teve confusão nos pênaltis... Eu saí uma semana antes, fiz todo o Paulista, e uma semana antes o Mauro Ramos, que era o treinador do Santos, foi para o México, e me ligou, me convidando. Eu disse que queria ficar pelo menos na final. Ele respondeu: Alcindo, tu vem, porque mexicano quer, e outra hora não quer. E eu fui. E depois eu fiquei sabendo que o Armando se perdeu. Mas fiquei dois anos no Santos.


E lá no México? Jogaste no Jalisco com o Mauro?

Joguei dois anos e meio, só que era um time pequeno, e que já trocaram de nome. Depois, fui para um time grande, que me deu condições, e tive um filho meu, que nasceu no México, Juan Carlos, que nasceu na Cidade do México.

Deu para ganhar mais aonde? Aqui, no Santos, no México?

Olha, eu não sou de me queixar. O futebol não é como hoje, onde as coisas são fáceis. Mas eu não posso me queixar. Ganhei bem, o Aírton, foram poucos. Só que hoje dá muito mais. Mas eu seria injusto em dizer que não.


Fonte: depoimento a João Carlos Belmonte, Band AM 640 (www.bandrs.com.br)


posted by Marcelo Xavier 5:42 PM


Sexta-feira, Setembro 23, 2005

 
História
BRAULIO? QUE BRAULIO?
Meio-campista do Inter dos anos 60 e 70 foi protagonista
de uma das maiores controvérsias do futebol gaúcho de seu tempo



O Garoto de Ouro

Futebol-arte ou futebol-força? Na Porto Alegre final dos anos 60, quando a preparação física se profissionalizava cada vez mais e atletas habilidosos e eminentemente técnicos pareciam perder lugar para boleiros, corpulentos e de explosão muscular, um meio-campista se tornaria o jogador mais discutido de sua época: Bráulio. Dono de um estilo de jogo clássico, com a mudança de filosofia de futebol ocorrida no Internacional a partir de 1969, o meia passou a ser considerado um representante do "decadente" estilo dos tempos do Rolo Compressor, dividindo mentes e corações de jornalistas e torcedores contra ou a favor do futebol que ele próprio representava.

Mesmo assim, Bráulio tinha copa franca com boa parte da torcida e parte da crônica esportiva. Muitos ainda se recordavam daqueles anos difíceis que foram os de vacas magras, nos meados dos anos 60, quando a infra-estrutura era precária, e os atletas jogavam no limite. Também se recordavam especialmente daquele Gre-Nal do Roberto Gomes Pedrosa, de 1967, quando o meia foi o nome do jogo, vencido pelo Inter. Desse clássico, surgiu o apelido, dado pelo então locutor Mendes Ribeiro, que passou a chamá-lo de O Garoto de Ouro.

A nova filosofia nasceu com o Beira-Rio, em abril de 1969. A partir de então, Os Mandarins, um grupo de conselheiros de fortes convicções a respeito de organização de clube e time, de grande influência dentro do Inter, sob o aval do então presidente colorado, Carlos Stechmann (batizado com este nome por Luis Fernando Verissimo, que os comparava aos antigos mandarins da China, "que tudo sabiam, tudo faziam mas poder não tinham"), passaram a ditar as regras, baseados na experiência vitoriosa do Grêmio heptacampeão e em conceitos diferenciados, de sua própria inspiração. Eles pregavam um futebol espartano, com menos brilho e mais vigor, diferente do academicismo herdado dos anos 50, que fazia o time marejar os olhos da torcida com seu toque de bola para, no fim, entregar a taça de campeão gaúcho para o seu arqui-rival...

Para tal modelo, Bráulio era um anacronismo de farda e chuteiras: franzino, parecia não ser bom marcador, não dava combate. A principal figura dos Mandarins era Ibsen Pinheiro, que era o primeiro a amavelmente execrá-lo. Em 1970, ele confidenciou que tentara a troca do meio-campista ao Grêmio, em favor do ponta Volmir. Revelou que foi dissuadido pelo então presidente tricolor, Rudy Petry, que brincou, dizendo que Bráulio seria mais útil aos azuis jogando no Inter. No lugar dele, os assessores de Stechmann queriam Sérgio Galocha. Estava armada a controvérsia: eram os anti-brulistas contra os braulistas. Futebol-força contra futebol-arte.

Como o Garoto de Ouro tinha parte com a torcida, muito do sucesso do "novo" Inter foram abaixo de vaias de braulistas inconformados. Entre eles, estava o próprio Verissimo, que recém iniciara a sua trajetória na crônica, ao ocupar o lugar de Sérgio Jockeymman em Zero Hora. O autor de "O Popular" revelou em seu livro Internacional ¿ Autobiografia de uma Paixão que, no entanto, o pièce de resistance dos anti-braulistas não era Sérgio, mas sim o ponta Valdomiro, que teve um começo conturbado no clube, sendo vaiado pelos torcedores, embora tivesse todo o crédito do treinador Daltro Menezes. O cronista diz que, com o tempo, o ponta de três jogadas (bola parada, linha de fundo e cruzamento), realmente era o seu "futebol-força" o responsável pela maior parte dos gols do time: "foi Valdomiro quem finalmente conquistou a torcida para o futebol dos Mandarins", relembra.

A polêmica causou a primeira deserção no grupo: cansado das críticas, Hugo Amorim, um deles, deixou a assessoria de Aldo Dias Rosa na vice-presidência de futebol. Com o passar dos meses, mesmo indiferente à controvérsia, o meia colorado seria responsável pelo fim dos próprios Mandarins. Entre eles e Bráulio, o presidente do clube ficou com o "futebol-arte". A verdade é que, com efeito, a simples opção por um modelo ou outro não seria responsável pelo êxito ou o fracasso do time, embora a nova medida imposta pelos Mandarins realmente colhesse frutos com o passar dos anos.

Para Verissimo, o exagero em cima desse debate tinha uma explicação: naquela época, o futebol era um refúgio da política: "a própria questão Galocha versus Garoto de Ouro ganhara conotações políticas no Inter, com a sugestão de que os Mandarins, esquerdistas, queriam valorizar o coletivo sobre o individual e por isso combatiam aquele que brilhava muito", diz o escritor.

Bráulio entende aquela controvérsia tinha contornos pessoais: "foi um baque" conta. "Eu não esperava que aquelas pessoas que gostavam de mim ficassem contra mim", revela. "O Ibsen não me queria no Internacional, nem como jogador, nem como pessoa".


Carlos Stechmann (à direita) e os Mandarins

Sérgio Galocha e Bráulio continuaram se revezando no meio-campo. Com a saída de Daltro, o controverso meia seria reintegrado por Dino Sani, em 1971, que não queria prescindir de seu talento. Mesmo assim, ele sentia que sua situação no Beira-Rio era indefinida. Foi quando chegou o embate entre Inter e Santos, no Pacaembu, valido pelo Brasileiro. Para ele, dentro das quatro linhas, Bráulio disputaria a sua permanência no clube. "Eu sabia que se eu fosse mal naquele jogo, eu seria mandado embora", relembra. "Se eu fosse bem, o Stechmann ganharia as eleições". O presidente colorado então estava em má situação, perdendo o pleito nas projeções por seis votos. No vestiário, Sani insistiu ao meia, que estava abalado com a perda recente de seu avô:

- Você joga?

- Jogo - decretou, convicto.

Figueroa, que recém havia sido contratado, chegou para ele, e disse:

- Te quedes tranquilo, que Pelé no vai jugar. Faça a tua parte e ganha o jogo para nós.

Confiante, Bráulio jogou todo o seu futebol, enquanto o gringo chileno, como prometera, barrou as investidas do Rei. Numa jogada de ataque, ao ser lançado, deixando dois marcadores sentados, o "polêmico" meio-campista chutou com a perna que só usava para subir no bonde, a esquerda, e mandou a pelota para o barbante, bem longe das mãos do goleiro Cejas. Resultado final: 1 a 0, no todo-poderoso Peixe...

O gol do Garoto de Ouro virou as eleições. Dois cinco, seis votos que faltavam, o Carlos Stechmann ganhou as eleições de Aldo Dias Rosa, por 154 a 152. "Foi esse gol que ganhou as eleições", garante o jogador. Porém, com a sua permanência no Beira-Rio, os Mandarins deram o ultimato: ou ele ou nós. O presidente ficou com Bráulio. Para o craque, em compensação, a sua vitória pessoal não o livrou de certos dissabores.

De acordo com ele, muitos dos ex-assessores da presidência colorada foram para a imprensa e, entrincheirados atrás de microfones e máquinas de escrever, passaram a mover uma jihad contra o seu futebol: "cada um procurou uma fonte, e ali começaram a me combater", conta. "Fizeram aquela coisa do braulismo e anti-braulismo, e já era uma coisa pessoal". Para Bráulio, era uma guerra cruenta: "eu era um jogador técnico: não era um ponta-de-lança", explica, hoje. "Se eu estivesse jogando agora, eu seria o segundo volante, eu seria um Tinga, não saberia marcar, mas não precisaria marcar tão bem", desabafa. "Então, houve essa polêmica toda, eu sofria demais".

Desgastado com as críticas, ele decidiu mudar de ares. Foi quando surgiu uma proposta para ir para o América. Mesmo relutante, à princípio, ele seria campeão pelo clube em 1974, além de ser escolhido o Craque do Ano, Bola de Ouro, entre 1974 e 1977. O Garoto de Ouro também jogaria pelo Botafogo, Coritiba e Universidad do Chile, quando encerrou sua carreira, em 1980.





posted by Marcelo Xavier 11:09 AM


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